
Na semana passada, escrevi sobre o realismo fantástico que permeia o governo de Eduardo Paes na Prefeitura do Rio. Dias depois, o colunista Antônio Sá publicou um perfil do alcaide que disse tudo com todas as letras: temos um narcisista político no comando da cidade. Pois bem, como se quisesse confirmar, em alto e bom som, tudo o que foi dito por mim e por Sá, Paes resolveu protagonizar um espetáculo tragicômico digno de García Márquez — só que sem literatura e com muito suor de praia.
No último dia 16 de maio, Paes encenou uma reunião no Teatro Ipanema com os barraqueiros da orla carioca — aquele tipo de encontro em que o prefeito acha que está dando uma aula magna de civilidade, mas acaba parecendo mais um coronel de terno. O tema? Um decreto novo, com regras mais rígidas para quem trabalha nas areias do Rio. Ali, ao lado do fiel escudeiro vereador Flávio Valle, Paes tentou empurrar a medida goela abaixo.
Mas eis que o povo — esse inconveniente elemento da democracia — resolveu se manifestar. No auge do nervosismo, lançou a frase que há de ecoar até a eleição: “Prefiro perder a eleição do que ter uma cidade esculhambada.” Só faltou dizer: “desde que eu decida o que é ou não esculhambado.” Porque, convenhamos, o que para ele é ordem, para os outros costuma ser abuso. Logo após, a gritaria na imprensa foi tamanha que nem a retórica arrogante do prefeito deu conta.
Se você pensa que parou aí, prepare-se: mais um ato da ópera-bufa veio com a divulgação de um vídeo da fatídica reunião. Nele, Paes se vira para Valle e diz, com a elegância de um elefante em loja de cristais: “Dane-se, com todo respeito, o seu mandato, Flávio.” Eis aí o prefeito, em sua plenitude, resumido em uma frase. Um homem que acredita piamente que o poder Executivo é também Legislativo, Judiciário, cartorial e, se deixar, até síndico do condomínio alheio.
Ora bolas, até onde me consta — e consta também na Constituição — há algo chamado separação dos Poderes. Há também uma coisa chamada respeito ao voto popular. Mas isso tudo parece balela para um prefeito que se vê como o monarca ilustrado da Guanabara. Paes age como se a cidade fosse um brinquedo seu e os vereadores, bonequinhos que ele pode mover ao bel-prazer. Flávio Valle, que achou que poderia ser o puxa-saco mais esperto da corte, acabou provando do próprio veneno: foi humilhado diante do povo e ridicularizado pelos colegas.
No fundo, o que estamos vendo é a falência de uma forma de fazer política baseada no personalismo, na arrogância e no improviso. Paes reina — mas reina sobre um castelo de areia. E a maré está subindo.
