A nova tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada pelo governo dos Estados Unidos, acendeu o alerta na indústria de Santa Catarina.
A Federação das Indústrias do Estado (FIESC) avalia que a medida representa um risco direto às exportações catarinenses, especialmente por afetar itens de alto valor agregado que têm nos EUA seu principal destino.
O presidente da FIESC, Mario Cezar de Aguiar, vê com preocupação a decisão do governo norte-americano. Ele aponta que, do ponto de vista econômico, a medida não encontra justificativa, já que os EUA mantêm um superávit comercial histórico com o Brasil.
Além disso, ressalta que as decisões internas brasileiras devem ser respeitadas por outros países, mesmo quando há divergências políticas.
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Para a entidade, a escalada tarifária anunciada por Donald Trump exige atuação imediata da diplomacia brasileira. O temor é que a tarifa impacte diretamente na competitividade da indústria local, abrindo vantagem para concorrentes estrangeiros, especialmente a China, que hoje enfrenta alíquotas menores.
O risco, segundo Aguiar, é o cancelamento de contratos e investimentos no país.
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Em 2024, Santa Catarina exportou US$ 1,74 bilhão para os Estados Unidos, com destaque para produtos manufaturados como móveis de madeira, motores elétricos, peças automotivas, cerâmica e compressores.
No primeiro semestre de 2025, as vendas somaram US$ 847,2 milhões. Os EUA são o maior mercado para as exportações catarinenses, superando até mesmo a China em volume de itens industrializados.
A preocupação é compartilhada por lideranças empresariais do estado. O primeiro vice-presidente da FIESC, Gilberto Seleme, considera que a tarifa compromete anos de esforço do setor produtivo para se modernizar e conquistar mercado no exterior.
Ele ressalta que, diante dessa barreira, as empresas catarinenses não têm para onde redirecionar sua produção. O mercado interno não absorve todo o volume produzido, e outros países não oferecem a mesma escala de demanda que os Estados Unidos.
No Planalto Norte, o vice-presidente da FIESC na região, Arnaldo Huebl, destacou que o setor moveleiro será um dos mais prejudicados. A região de São Bento do Sul, tradicional polo da indústria de móveis de madeira, pode sofrer com cancelamento de pedidos e demissões.
Ele afirma que, com uma tarifa de 50%, os produtos brasileiros perdem competitividade até mesmo para os chineses, que historicamente enfrentam taxas maiores, mas recentemente negociaram redução para 30%.
Huebl explica que o impacto no setor será quase imediato, já que as encomendas são feitas com prazos curtos, de até três meses, e não há contratos longos que garantam a continuidade dos negócios.
O cenário também preocupa a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que estima que a medida afete a competitividade de cerca de 10 mil empresas brasileiras exportadoras.
De acordo com a entidade, os EUA têm superávit acumulado de US$ 256,9 bilhões com o Brasil quando se considera o comércio de bens e serviços.
A entrada de produtos norte-americanos no mercado brasileiro, segundo a CNI, foi taxada em média em apenas 2,7% em 2023 — quatro vezes menos que o teto de 11,2% permitido pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Donald Trump estipulou o dia 1º de agosto como data para entrada em vigor da tarifa.
Até lá, empresários catarinenses esperam que o governo brasileiro, por meio do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, consiga reverter a medida e evitar prejuízos bilionários.
Para Santa Catarina, a medida chega em um momento sensível. O estado se destaca como exportador de produtos industrializados e alimentos processados, com forte integração global.
Entre os itens mais vendidos aos EUA estão iates, bombas de líquidos, carne suína, couro bovino, suco de frutas, gelatina e revestimentos cerâmicos.
Ao mesmo tempo, SC importa dos Estados Unidos uma lista diversificada de insumos industriais e produtos médicos, o que torna a relação comercial ainda mais estratégica para os dois lados.
