

Mulheres negras são o maior grupo populacional do país. As mulheres representam 51,5% e negros 56,1% da sociedade, com mulheres negras compondo 28,5%. E a pergunta que deixo para você, leitora e leitor: se as mulheres negras são a maioria da sociedade, quantas delas convivem no seu círculo social?
Sou uma mulher negra, mãe, jovem e da extrema zona oeste do Rio de Janeiro. Também sou gestora pública, secretária municipal e vereadora eleita, além de carregar vários outros títulos e cargos de liderança. Nós, mulheres negras, precisamos frequentemente destacar nossas conquistas, pois, infelizmente, no imaginário social, nossa estética não é vista como pertencente a essas posições de poder.
Sustentamos a economia na base, lideramos famílias e movimentamos a cidade. No entanto, somos apenas 8% na política, 3% em cargos de alta liderança no setor privado e 1,8% nos conselhos administrativos. Ou seja, a conta não fecha.
Essa distância entre quem constrói o Brasil e quem define seus rumos é uma das expressões mais profundas da desigualdade. No dia 25 de julho — Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha —, não pedimos clemência, mas reivindicamos nossos direitos. E o desafio da gestão pública é enfrentar essa distorção com políticas que reconheçam, repararem e garantam nossa presença.
Observando os dados sobre violência contra a mulher e abuso sexual infantil, vemos que a vida da mulher negra brasileira continua alvo de intensa violência. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública deste ano, 1.492 mulheres foram assassinadas — o equivalente a quatro vítimas por dia. Desse total, 63,6% eram negras. Entre os 87.545 casos de estupro registrados, 55,6% das vítimas pertenciam a esse grupo. Além disso, 76,8% dos casos envolveram meninas vulneráveis, sendo metade delas negras e tendo até 14 anos.
Diante de tantos dados, minha reflexão é que a luta pelo fim das desigualdades econômicas e sociais é fundamental para que o Brasil alcance seu verdadeiro espaço de poder. Devemos reconhecer nossas profundezas mazelas e agir com estratégias eficazes para alavancar mudanças estruturais.
Nos últimos anos, tive a oportunidade de visitar diversos países, compartilhando e aprendendo sobre desenvolvimento econômico. O que mais aprendi nessas experiências foi que uma nação se desenvolve economicamente quando investimos no seu povo. Para isso, são necessárias estratégias educacionais e a erradicação da pobreza para os grupos mais vulneráveis. Assim, com o tempo, o impacto na segurança pública, na saúde e em outras áreas-chave se torna evidente, e a “promessa” de potência se transforma em “realidade”.
Meus amigos e amigas, eu não sou a minoria! Eu pertenço à maioria que, ao longo da história, foi excluída dos espaços de poder.
Como muitas mulheres negras em posições de liderança, enfrentei desconfiança e cobrança desproporcionais, mas estou firme na convicção de que ocupar esses espaços é parte de um processo mais amplo: garantir políticas que funcionem para todas as famílias, sem perder de vista as desigualdades para buscar justiça.
Quando falamos em políticas públicas para mulheres negras, estamos abordando a interseccionalidade aplicada à gestão: entendendo como gênero, raça e território se entrelaçam para gerar equidade para todos.
Neste Julho das Pretas, reafirmamos a importância de uma gestão pública e privada que escute, reconheça e atue com base nas realidades concretas das mulheres negras.
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