

Por meio da Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS), o Governo do Estado do Rio de Janeiro desembolsou mais de R$ 740 mil na compra de 473 armadilhas fotográficas — equipamentos utilizados para monitoramento da fauna e da flora. Adquiridas por meio de Pregão Eletrônico, as armadilhas foram fornecidas pela empresa Ledath Comércio e Representação Eirelli ao custo unitário de R$ 1.572,90, totalizando uma despesa de R$ 743.981,70, conforme o contrato nº 03/2025. No entanto, o mesmo tipo de equipamento pode ser encontrado em plataformas de venda online por cerca de R$ 300, o que representa uma diferença de mais de R$ 600 mil em relação ao valor de mercado. A entrega dos dispositivos ocorreu em maio, durante um evento oficial promovido pela SEAS no Museu do Amanhã, na Praça Mauá.
Esse valor supera em mais de 400% os preços praticados no mercado nacional, onde equipamentos similares custam, em média, entre R$200,00 e R$700,00. O valor individual definido no Termo de Referência divulgado pela Secretaria do Meio Ambiente era de R$ 1.692,00. No entanto, o preço vencedor do Pregão Eletrônico foi de R$ 1.572,90, o que representa uma redução de 7%, ou R$ 119,10 por unidade.
Em formato de câmeras fotográficas, as armadilhas são amarradas a troncos de árvores para filmar e fotografar animais que circulam pelas matas dos parques e unidades de conservação (UC) estaduais e municipais espalhados pelo território fluminense. Todos os 92 municípios do Rio receberão uma dessas máquinas.
Equipamento caro e sem justificativa técnica

Na proposta de preço anexada ao Pregão, a Ledath não apresentou nenhum diferencial técnico que justificasse o valor de R$1.549,96 frente a modelos convencionais, como os Bushnell e Moultrie, que raramente ultrapassam R$1.200,00. O documento apresenta ainda fotos genéricas do produto copiadas dos sites de vendas, como o Mercado Livre, mas sem os preços reais. Não informa também o prazo de garantia dos produtos e se fará a manutenção dos mesmos.
A marca apresentada na tabela da Ledath (“Super Night Vision”) não possui reconhecimento no setor, indicando produto genérico. No documento existe apenas uma fonte de pesquisa: a empresa Log Nature, de Belo Horizonte, com preços entre R$2.370,90 e R$3.331,90, acima do valor vitorioso no leilão, mas com recursos bem mais avançados que os do modelo entregue ao governo estadual.


No último levantamento feito pela equipe do DIÁRIO DO RIO, os preços de mercado do modelo da câmera genérica apresentada (16MP, Full HD, infravermelho e IP66) eram de R$199,00 a R$628,00 (Magalu) e de R$155,00 a R$285,00 (Mercado Livre/Amazon). A diferença com a cifra de R$1.572,9 por unidade ficou maior ainda, entre 300% e 900%.
Na proposta não foi especificada se as armadilhas vêm com garantia e qual sua duração e nem se a empresa fará a manutenção. Segundo especialistas, o grau de proteção IP-66 já está ultrapassado, sendo o adotado atualmente pelo mercado o IPX 67, com maior proteção contra chuvas e, até mesmo, imersão temporária em água.
O pagamento do valor geral do contrato foi feito em 21 de fevereiro de 2025 pelo secretário do Ambiente, Bernardo Rossi, via nota de empenho no valor de R$992.092,15 e depósito único em agência Bradesco. Pela Ledath assinou a minuta o seu proprietário, Edilso Fernandes Lima Conceição. O pagamento incluiu também a compra de equipamentos de apoio, como notebook, tablet, computador, freezer, puças e pinções, entre outros.
Margem de lucro de 50% e 2 falhas cometidas


O empresário Edilso Fernandes Lima Conceição revelou que sua margem de lucro foi de 50%, mesmo com a compra tendo sido feita em uma empresa em Santa Catarina e ele ter ficado com o custo do frete. Acrescentou ainda que teve gastos com o teste de qualidade feito em todas as armadilhas, que já vieram montadas, e os 14,9% de impostos do Simples Nacional. Ele se negou, no entanto, a revelar o valor unitário de cada armadilha fotográfica.
O empresário justificou o valor final do Pregão, com redução de apenas 7,03% (R$ 56.334,30) a dois fatores principais. O equívoco na escolha da modalidade do certame, definido pela Inea (Instituto Estadual do Ambiente), órgão da SEAS, como global (valor total dos equipamentos) e não unitário como, segundo ele, geralmente as instituições fazem nesse tipo de compra, e por ter sido realizado às vésperas do Natal (23/dez), quando muitas empresas competitivas do setor estão em recesso. Ele disse que durante o Pregão Eletrônico, calculou em 12 as empresas participantes.
A entrevista foi feita na sede de sua empresa, formada por uma sala e um salão em anexo, construída em cima da casa de sua sogra, na Vila Neli, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. “É um escritório de representação. Trabalho sério e pago os meus impostos”, disse, diante de dois dos seus quatro funcionários, para depois reconhecer que tem algumas dívidas bancárias e outras pendências no mercado.
Entrega com pompa no Museu do Amanhã


Apesar do número total dos equipamentos ser de 473 nos documentos do leilão, o texto de divulgação da Assessoria de Imprensa do Palácio Guanabara e nas mídias sociais do governador Claudio Castro e do Secretário Bernardo Rossi é de 480. A nota divulgada pela SEAS não explica esta diferença.
A entrega das câmeras fotográficas foi feita à SEAS em 22 de maio (Dia Internacional da Biodiversidade), no Museu do Amanhã, na Praça Mauá, com a promessa de Bernardo Rossi em modernizar o monitoramento da fauna após 27 anos sem atualização. Os equipamentos foram mostrados em vídeo no Instagram do governador Cláudio Castro, com os dois, sorridentes e segurando uma das armadilhas, concluírem. “Estamos de olho”.
Secretaria não esclarece Pregão na véspera do Natal e outros questionamentos
Indagada sobre quantas empresas receberam o pedido de orçamento para a compra das 473 armadilhas fotográficas e quantas enviaram o documento, a SEAS informou, em nota, apenas que 62 empresas foram convidadas por meio eletrônico e 11 participaram efetivamente da disputa. A nota não informa o motivo que levou a instituição a marcar o leilão às vésperas do Natal.
Segundo especialistas no setor, neste tipo de certame, geralmente, as instituições que realizam o Pregão enviam o convite para as empresas credenciadas acompanhado de pedidos de orçamentos que servem como uma espécie de confirmação e também usados, após cruzamentos de dados e comparação com leilões similares, na definição dos preços global e unitário.
A nota da secretaria também não se manifestou sobre outras indagações apresentadas pelo DIÁRIO DO RIO, como o percentual de redução do preço em apenas 7%; a quantidade de 473 no edital e a final subir para 480; a não apresentação pela Ledath de um diferencial técnico para justificar o valor unitário de R$ 1.572,90.
Não houve esclarecimentos também sobre o fato de a proposta vencedora apresentar apenas uma fonte de pesquisa, a empresa Log Nature, com preço inicial em R$2.370,00. Não foram especificados a duração da garantia e se haverá manutenção dos equipamentos adquiridos.
Íntegra da nota da Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS)
A Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS) informa que o processo licitatório para a aquisição de 473 armadilhas fotográficas foi conduzido de forma transparente, em conformidade com a legislação vigente e com as diretrizes do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). O edital do pregão eletrônico foi amplamente divulgado e publicado em 5 de dezembro. No total, 62 empresas foram convidadas por meio eletrônico, e 11 participaram efetivamente da disputa, com a vitória da empresa que apresentou o menor preço.
Para a definição do valor máximo do certame, a SEAS realizou uma pesquisa detalhada de preços praticados em pregões públicos similares no Brasil. Entre os referenciais utilizados estão licitações promovidas pelo Comando da Aeronáutica e pela Universidade Estadual de Santa Catarina, ambas com valores superiores ao contrato firmado pela secretaria.
É importante esclarecer que plataformas de varejo, como Mercado Livre e Magalu não participam de processos licitatórios. As empresas habilitadas devem estar devidamente registradas no sistema SIGA e atender a exigências legais, como inscrição ativa no CNPJ, regularidade fiscal e jurídica, e, no caso de itens importados, comprovação da origem e garantia do produto conforme a legislação.
A SEAS reforça ainda que, conforme determina a legislação federal de licitações, os editais devem assegurar ampla concorrência. Por isso, os itens licitados são descritos de forma genérica, sem direcionamento para marcas específicas, permitindo a participação do maior número possível de fornecedores.
Sobre a escolha da modalidade global, a secretaria segue a orientação do Tribunal de Contas para realizar as tomadas de preço sempre com todos os parâmetros definidos para obter maior atrativo no certame e os melhores preços.
