Cubanos do Mais Médicos relatam opressão e confisco de salários

Cubanos que participaram do Mais Médicos relataram com exclusividade a Oeste que trabalhar no Brasil, entre 2013 e 2018, significou viver sob vigilância constante, ter parte da remuneração confiscada e enfrentar ameaças contra a família.

O Mais Médicos voltou a estampar as manchetes nesta semana, depois de o governo norte-americano anunciar sanções a brasileiros ligados ao programa, criado em 2013 pela então presidente brasileira, Dilma Rousseff (PT). Na época, o objetivo da petista era suprir a carência de mão de obra em municípios pobres e regiões periféricas das grandes cidades brasileiras.

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O programa beneficiou mais de 60 milhões de pessoas que antes não tinham acesso a tratamentos básicos de saúde. Mas ninguém foi tão favorecido quanto a casta política cubana. Isso porque, segundo o acordo intermediado pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), a ditadura instalada em Cuba tinha o direito de embolsar 70% do salário dos médicos, estimado em R$ 12 mil. Outros 25% ficavam com quem trabalhava de fato, enquanto 5% pertenciam à Opas.

Os médicos Maireilys Álvarez Rodríguez e Alioski Ramírez Reyes afirmam que o Mais Médicos, apresentado oficialmente como cooperação humanitária, funcionava como um sistema de controle e exploração conduzido pela ditadura de Havana. As denúncias ganharam repercussão internacional e embasaram sanções do governo dos EUA contra o Brasil, além de ações judiciais contra a Opas, intermediária do acordo entre os dois países.

Maireilys: casa vigiada e família como refém

Maireilys Álvarez Rodríguez chegou ao Brasil em outubro de 2013 sem saber que ficaria com apenas 25% do salário pago pelo governo brasileiro. “Só descobrimos pelo noticiário”, disse. “O resto ia para Cuba e para a Opas.” Designada para Santa Rita (MA), a médica dividia uma casa com outros dez colegas de profissão — não podia alugar uma residência por conta própria, por imposição da ditadura cubana. Também não podia trazer a família, medida que servia para Havana chantageá-la. “Diziam que, se fizéssemos algo errado, nossos parentes sofreriam as consequências.” Depois de obter liminar na Justiça, Maireilys trouxe marido e filhos para o país. Hoje vive no Paraná e afirma não querer voltar a Cuba. “Apenas para viajar”, concluiu.

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Maireilys atende uma paciente grávida em um posto de saúde localizado no interior de Santa Rita, no Estado do Maranhão | Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Alioski: ameaça de cassação

Antes de embarcar, Alioski Ramírez Reyes assinou, em Cuba, um contrato de quase R$ 3 mil mensais sem saber que o Brasil pagava cerca de R$ 12 mil por seu trabalho. “O governo ficava com 75% do salário”, disse. “Para quem ganhava R$ 140 por mês, parecia muito, mas era exploração.”

Quando médicos começaram a processar o governo brasileiro, Havana intensificou a vigilância. Reyes, mesmo sem entrar com ação, foi confundido com um dos rebeldes e ameaçado de perder o diploma. Sua mãe perdeu o emprego em Cuba. Sem contrato renovado, trabalhou como cobrador de ônibus e gerente de farmácia até concluir o Revalida — Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos, aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A prova serve para que médicos formados no exterior, brasileiros ou estrangeiros, possam validar seu diploma e exercer legalmente a profissão no Brasil. Hoje, Reyes aguarda o CRM para voltar a atuar como médico.

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Alioski, vestido de branco, ao lado de seus colegas de trabalho | Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Em 2019, no governo Jair Bolsonaro, o programa foi substituído pelo Médicos pelo Brasil, que manteve a função de levar médicos a regiões carentes, mas estabeleceu novas regras: exigência de aprovação no Revalida para estrangeiros, plano de carreira e salários maiores, que podem chegar a R$ 21 mil. Parte das denúncias feitas por médicos cubanos sobre retenção de salários e coerção política remete à fase anterior, do Mais Médicos.



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