

Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO RIO, um mês após ser desligado da Secretaria de Transportes do Estado, o ex-deputado Washington Reis (MDB) afirmou que mantém uma “relação ótima” com o governador Claudio Castro, afastando rumores de desentendimento. Por outro lado, o ex-prefeito de Duque de Caxias não poupou críticas ao presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), deputado Rodrigo Bacellar (PL), que assinou sua demissão durante o período em que exerceu interinamente o cargo de governador. “É arrogante, autoritário, sem princípios e vem de berço ruim”, disse. Pré-candidato ao Palácio Guanabara, Reis também insinuou que o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), pode não disputar a eleição de 2026, e destacou ter o apoio da família Bolsonaro, das polícias Civil e Militar e de setores do empresariado.
Diário do Rio: Agora, com a cabeça fresca, o senhor pode nos revelar qual foi o principal motivo de sua demissão da Secretaria de Transportes?
Washington Reis: É simples de explicar. O governador conseguiu articulação com o presidente da Alerj, de tirar o Thiago Pampolha de vice-governador e mandar para o Tribunal de Contas do Estado (TCE), na vaga do conselheiro que se aposentou, o José Maurício Nolasco. E, naturalmente, ia fazer um rodízio de governança com o presidente da Alerj até março. O governador tira férias e viaja para Portugal e o Bacellar assume temporariamente. Assumiria em definitivo em março do ano que vem e viria candidato à reeleição. Mas a ansiedade foi tão grande que o Bacellar começou a chamar prefeitos, pegar helicópteros e viajar ao interior. Já virou governador no outro dia. E ele me chamou para um café pedindo meu apoio. E eu revelei que seria candidato também, o que me impedia de apoiar alguém. E aí, prevaleceu aquele raciocínio de quem nunca construiu nada, quem não tem história, “não estar comigo é meu inimigo”. Aí o governador viajou e fez aquela bravata que, no final das contas, a classe política reagiu. Eu joguei parado. O governador me ligou, lá de Portugal, falando que iria revogar a exoneração e teve um movimento na Assembleia que o impediu de reverter mas, pra mim, tranquilidade. O cargo é do governo. Eu não estava ocupando um cargo em que eu fui eleito. Eu ajudei a ganhar a eleição. E ganhei, mas não levei. Mas isso aí é do processo político.
Diário do Rio: Em 2022, com seu impedimento decretado pelo TRE, devido à condenação por crime ambiental em 2016 em Caxias, mesmo podendo recorrer, o senhor renunciou a candidatura a vice na chapa de Claudio Castro, para, segundo declarações na época, não prejudicar a campanha, que acabou vencedora. Agora, com sua demissão, o senhor não se sente traído?
Washington Reis: Não, não, eu não estava preso a um cargo. Eu presido o MDB, que é um grande partido, com 11 prefeitos, 17 vice-prefeitos de cidades importantes, mais de 100 vereadores, tem parcerias em obras no Estado todo. Então, o meu viés aqui, o meu norte, o meu radar, está muito maior do que preso a um cargo. Eu mesmo falei com o governador para não se incomodar, porque eu não seria problema, e não sou mesmo. Como sou candidatíssimo a governador, sempre fui, eu já iria largar o cargo antes de chegar ao final do ano. Estava só acabando de organizar a diminuição das passagens do trem, do metrô, igual eu fiz nas barcas. Mas isso é do jogo, saí e virei a página. Nem lembro mais o endereço da secretaria.
Diário do Rio: Deputado, o senhor anunciou na imprensa a redução das tarifas do metrô e trens em quase 40% sem falar com o governador. Uma realização importantíssima. O senhor, que já foi prefeito três vezes, acha isso certo? O anúncio não teria que ser feito pelo governador, com o senhor ao lado?
Washington Reis: Não, não é fato não. Eu tinha falado com o governador. Não, eu não anunciei a diminuição do preço da passagem. Eu respondi ao jornalista que o projeto já estava pronto, estava na mão do governador, que iria acontecer e vai acontecer. O governador tem um compromisso com a sociedade e com o meu trabalho. E esse ano ainda, nós, eu vou lá junto com ele, vamos diminuir o preço do metrô, que é o mais caro do Brasil. Vai cair de R$ 7,90 para R$ 4,70 (mesmo valor da passagem de ônibus), e o trem de R$ 7,60 para R$ 4,70.
Diário do Rio: Então, o senhor não está rompido com o governador?
Washington Reis: Não, não tenho problema nenhum com o governador, não. Relação ótima.
Diário do Rio: Alguns analistas políticos apontam esta insubordinação à ameaça dos aliados do presidente da Assembleia Legislativa em abrir uma CPI da Secretaria de Transportes, com sua convocação para depor. Foi esta a gota d`água para sua mudança de comportamento?
Washington Reis: Este movimento da Alerj foi totalmente de políticos que estão com TPE (Tensão Pré-Eleitoral). Desespero total. Com tranquilidade e respaldado nos 33 anos de vida pública e 10 mandatos, a gente lida com este tipo de manobra com cautela e comendo pelas beiradas.
Diário do Rio: O senhor já foi deputado estadual por três mandatos e conhece bem os bastidores da Assembleia Legislativa. Como avalia a relação dos deputados com o atual governador?
Washington Reis: O chefe do Executivo tem a maioria a hora que ele quiser. Vai passar muita água por debaixo da ponte ainda. Pela sobrevivência política, os parlamentares mudam de posição. O governador sabe fazer isso e vai controlar até a sua saída para se candidatar ao Senado.
Diário do Rio: Seu irmão, o deputado estadual Rosenverg Reis, que vive às turras com Bacellar na Alerj, afirmou que ele é uma espécie de “Xerife do Estado” e é quem realmente manda na administração. O ex-governador Anthony Garotinho, em entrevista ao Diário do Rio, disse que fala com o senhor constantemente, foi na mesma linha e afirmou que Castro é refém de Bacellar e de seu grupo de deputados na Alerj. Afinal, quem manda no Estado?
Washington Reis: O Rosenverg se referiu à arrogância do Rodrigo Bacellar. Como alguém chegar na sua casa e abrir a geladeira sem pedir licença. Ser mal educado. Falou no tocante aos princípios, o berço ruim do presidente da Assembleia. Não tem princípios, não foi eleito a nada e sua arrogância. Fica ali se achando o rei da cocada. O acordo com o governador vinha bem, até ter descambado pro lado da arrogância e do autoritarismo. Você viu que ele virou pó em um minuto.
Diário do Rio: Em um jogo de pôquer, o senhor daria as cartas para o presidente da Alerj embaralhar?
Washington Reis: Eu aprendi uma coisa na vida. Tem gente que nós temos que ignorar. Ele eu ignoro. Não merece estar no meu radar.
Diário do Rio: Garotinho disse ainda que, proporcionalmente, Claudio Castro rouba mais que o ex-governador Sergio Cabral. O senhor concorda com esta declaração?
Washington Reis: Aí não é comigo. Isso é com a polícia, pra Justiça, para o Ministério Público. Não sou promotor e nem parlamentar pra fiscalizar. Não é comigo não.
Diário do Rio: A sua demissão e o pré-lançamento de sua candidatura ao governo do estado acabou lhe rendendo o apoio do grupo político mais forte eleitoralmente no estado do Rio, o da família Bolsonaro. Este acordo já estava alinhavado ou foi a crise que o viabilizou?
Washington Reis: A minha relação com Bolsonaro é desde o início da história. Antes de tomar posse, ele veio à Caxias inaugurar a primeira escola militar do Brasil quando eu era prefeito. O Flávio Bolsonaro me pediu e eu montei toda a escola pra ele. Nossa relação é de irmãos. Sempre foi acordado que, se eu viesse candidato a governador, teria o apoio deles.
Diário do Rio: Qual a avaliação que o senhor faz sobre a possível prisão de Bolsonaro e dos participantes do ato de 8 de janeiro?
Washington Reis: Peço a Deus todos os dias para esta questão terminar bem para o país e para o Bolsonaro, que não merece isso que ele está passando. A gente fica na torcida e à disposição para ser útil. Lamento muito o que estamos vivendo.
Diário do Rio: Além do PMDB, partido em que o senhor é o presidente estadual, e do PL do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senhor já fechou aliança com alguma outra legenda?
Washington Reis: Temos muita conversa política boa.
Diário do Rio: Já fechou com algum outro partido?
Washington Reis: Muita coisa fechada, mas só vou explicitar isso no início do ano que vem porque atrapalha muito os presidentes dos partidos na montagem de suas chapas para deputados estadual e federal. Atrapalha a eleição proporcional. Os partidos têm que vir fortes e independentes para montar suas nominatas.
Diário do Rio: Sua previsão é de uma aliança maior que a do Eduardo Paes, que costuma costurar amplos acordos?
Washington Reis: Eu garanto pra você que a nossa aliança será maior. Maior em tempo de televisão e de coalisão partidária.
Diário do Rio: Além do apoio de Bolsonaro, o senhor e sua família têm forte presença na Baixada Fluminense, segunda maior região eleitoral do Estado. Com destaque para Duque de Caxias, onde o senhor foi prefeito por 3 vezes e onde, atualmente, seu sobrinho, Netinho Reis, é o atual mandatário. Além disso, é evangélico, segmento religioso que mais cresce no país. Foram estes os principais fatores que o convenceram de que o senhor tem chances de vitória no pleito de 2026?
Washington Reis: Nasci no berço evangélico e sempre fui membro deste segmento e sempre tive uma boa votação entre os crentes, atuando na Assembleia de Deus, mas nunca explorei isso. Meu capital sempre foi o trabalho e a credibilidade. Cumpro com os acordos. Fui deputado por 5 vezes (3 como estadual e 2 como federal). Eu sou representante do setor produtivo. Sempre fui empresário. Nasci dentro do comércio. O setor produtivo virá forte com a gente. Sou respeitado pela polícia, tanto a Civil quanto a Militar. Tenho uma família grande neste setor. Tenho o apoio da família Bolsonaro, dos prefeitos. Atuo na Baixada Fluminense, no Interior, na capital. É uma história de muita luta e pautada por princípios mais corretos possíveis.
Diário do Rio: O tema da Segurança deve ser, mais uma vez, o principal assunto debatido na campanha. O senhor já tem alguma proposta para apresentar neste setor.
Washington Reis: Tô agora aqui em Caxias, reinaugurando a creche Cecília Meirelles, que eu construí há 20 anos, quando era prefeito e ela foi toda reformada. È uma das maiores do Brasil e atende cerca de 500 crianças. Citando o caudilho Leonel Brizola, investir em Educação, Saúde, tudo é segurança. Você tem que desarmar a pessoa que debanda pro crime e deixar de vitimização. Com estas iniciativas você entra nas casas das pessoas. Quem tem a índole para ser bandido você tem que prender e botar pra trabalhar, policiamento ostensivo nas ruas e investir em tecnologia. Se precisar, vamos buscar o bandido embaixo da cama. Devolver as ruas para as famílias. Isso eu sei fazer e é otimizar os recursos e ver onde investir e não ficar de blablabla. Abrir ruas largas nas comunidades para policiamento ostensivo, acabar com as barricadas para evitar que o morador vire refém do crime.
Diário do Rio: O fato do senhor vir candidato com apoio de partidos de direita e de um segmento religioso conservador vão guiar o seu discurso de campanha? A narrativa será no campo dos costumes e da moralidade ou vai priorizar o debate dos problemas do Estado?
Washington Reis: A gente não vai filosofar. O que mais vale hoje na política é estabelecer uma relação de confiança. Esta palavra foi a que me guiou na minha carreira pública. Em quem você não confia, ele pode prometer o olho que o eleitor não vota nele.
Diário do Rio: Seus adversários avaliam que sua esperança em reverter sua condenação no STF por crime ecológico em Duque de Caxias, o que o tornou inelegível, se deve a influência do Prefeito Eduardo Paes junto ao ministro do Supremo Gilmar Mendes. Caso isso ocorra, mesmo assim o senhor vai concorrer contra ele?
Washington Reis: Eu nunca vi prefeito influenciar ministro do Supremo. Não existe isso não. Eu tenho um bom advogado. Você reverte ou ganha qualquer causa se você tiver um bom direito. Eu não cometi nenhum crime e em cima desta verdade que eu vou ganhar.
Diário do Rio: O senhor, então, descarta uma possível aliança com o prefeito Eduardo Paes neste pleito do ano que vem?
Washington Reis: Em política a gente não descarta aliança com ninguém. O Eduardo é um quadro competitivo mas, de repente, ele nem deixa a prefeitura. Eu desafio, se o Eduardo não for candidato, ele não apoia outro candidato que não seja o WR, o Washington Reis, que vos fala.
Diário do Rio: Diante de um quadro deste, é para ganhar no primeiro turno por falta de adversários?
Washington Reis: Quero ganhar. Se for no primeiro turno melhor ainda. Em Caxias, em 2020, todo mundo dava que teria segundo turno e o neguinho aqui ganhou no primeiro.
