O deputado federal Rafael Pezenti, do MDB de Santa Catarina, protagonizou nesta semana um discurso duro contra o governo federal e lançou uma ameaça pública que escalou a crise do setor leiteiro: “Eu vou ser o cara que vai abrir o registro do caminhão de leite que vai ser esvaziado na frente do Palácio do Planalto”, declarou o parlamentar, segundo trecho de fala entregue à reportagem.
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Pezenti afirmou ainda que, se o governo não tomar providências, pretende soltar “a primeira vaca” na Esplanada dos ministérios e fazer com que o mundo veja “como é que esse governo trata o produtor de leite”. O deputado repetiu que tentou “segurar os ânimos” e apaziguar a situação, mas que a paciência dos produtores acabou diante da queda do preço pago pelo litro do leite e do aumento das importações.
Números e acusações
No discurso, o deputado citou dados e argumentos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para sustentar as críticas. Segundo Pezenti, a decisão de retirar a CNA da competência para apresentar pedido anti-dumping teria aberto espaço para importações mais intensas de leite em pó, especialmente da Argentina e do Uruguai. Ele disse que, só em setembro, as importações aumentaram 28% e que, de janeiro até agora, o volume importado estaria 88% acima da média.
Pezenti afirmou que, enquanto o país importou 1,6 bilhão de litros de leite, o custo do produtor subiu 1,5% e o preço pago ao produtor caiu 4,3%. Citou ainda estimativa da CNA de que o preço pago ao produtor poderá cair até 10% até o fim do ano. Todas essas informações foram apresentadas por ele como justificativa para a pressão sobre o governo.
Além das críticas técnicas, o deputado fez acusações políticas ao questionar interesses internos ao governo que, segundo ele, estariam favorecendo empresas importadoras. “Por que o governo está defendendo essas quatro, cinco, dez empresas que estão acabando com a produção de leite no Brasil? Estão recebendo dinheiro dessas empresas? Isso não é uma acusação, é uma provocação”, disse Pezenti.
Reivindicações dos produtores
O tom da ameaça surge no contexto de mobilizações de produtores por todo o país que exigem medidas emergenciais. Entre as reivindicações recorrentes estão a criação de preço mínimo nacional para o leite, subvenção temporária por litro, fiscalização mais rigorosa das importações e proibição da reidratação de leite em pó para fins de fraude de origem.
Pezenti pediu que o governo “reconsidere” o pedido anti-dumping, lembrando que o prazo para resposta, segundo ele, teria vencido ao final de setembro e que ainda não houve deliberação. O deputado avisou que, sem uma ação, os protestos poderão se transformar em atos de impacto simbólico e logístico na capital federal.
Consequências políticas e econômicas
A fala do parlamentar intensifica a pressão política sobre o Executivo em um momento de fragilidade do setor. Se executadas, ações como descarregar caminhões de leite ou soltar animais na Esplanada podem gerar conflito com autoridades, custos logísticos e repercussão nacional e internacional. Para produtores e lideranças, porém, as medidas são defendidas como última forma de visibilidade para uma crise que, segundo representantes do setor, já compromete renda e a continuidade de pequenas propriedades.
O episódio também levanta perguntas sobre a coordenação entre órgãos governamentais, a atuação da CNA e a capacidade do Estado de frear práticas comerciais que produtores denunciam como dumping.
