

O vice-presidente nacional do PT e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, voltou a movimentar o debate interno da legenda ao defender publicamente a participação de influenciadores digitais nas eleições de 2026. Em suas redes sociais, o dirigente confirmou ter convidado Chico Moedas — criador de conteúdo com 2,1 milhões de seguidores — para se candidatar pelo partido, reforçando que a proposta “não é brincadeira”, embora ainda não haja definição sobre qual cargo estaria em discussão.
O convite, que repercutiu nas redes sociais e em círculos políticos do Rio de Janeiro, ocorreu após Chico participar de uma entrevista no Três Irmãos Podcast, ao lado do historiador e militante comunista Jones Manoel, figura influente entre jovens de esquerda. Em um trecho que viralizou, Jones pergunta a Chico se ele já havia sido procurado por partido político para disputar eleições. Diante da resposta negativa, Jones brinca que “Quaquá irá te ligar”. Uma semana depois, o prefeito de Maricá transformou a provocação em gesto concreto.
“Reforço o convite e repito: a política precisa se arejar cada vez mais, precisa representar as pessoas e ouvir todas as vozes. A esquerda tem que aprender a fazer isso e a ampliar esse projeto”, publicou Quaquá neste domingo, em tom de convocação.
Correndo atrás do PL e do Partido Novo
A fala de Quaquá não se limita a um gesto isolado. A direção petista tem debatido, nos bastidores, formas de ampliar a inserção da sigla entre jovens e públicos nativos das redes sociais, especialmente após as eleições de 2022, quando influenciadores tiveram papel determinante em disputas narrativas, campanhas de desinformação e mobilização de eleitores.
No PT, setores defendem que a sigla precisa criar pontes com o ecossistema digital, incorporando criadores de conteúdo que já dialogam com temas políticos. O movimento ocorre enquanto partidos como PL e Novo já testam candidaturas de influenciadores em escala nacional.
Fontes petistas afirmam que o convite de Quaquá é interpretado como um gesto político para “tensionar” a discussão interna sobre renovação e atrair quadros que falem diretamente com a juventude, público historicamente decisivo nos projetos progressistas, mas que hoje se dispersa entre plataformas e linguagens que a política tradicional ainda tenta decifrar.
De Maricá para o mundo
A cidade de Maricá, administrada pelo PT desde 2009, tornou-se uma espécie de laboratório para programas sociais da legenda. Projetos como a Moeda Social Mumbuca, o Bilhete Único municipal e o investimento em políticas culturais transformaram o município em uma referência das gestões petistas.
Ao ampliar o convite a Chico e a Jones Manoel, Quaquá reforça sua estratégia de projetar Maricá nacionalmente e vincular a imagem da cidade a iniciativas jovens e digitais. “Vocês precisam vir aqui conhecer tudo o que estamos fazendo”, escreveu o prefeito, buscando aproximar os influenciadores da sua gestão.
A força política dos convidados: quase 4 milhões de seguidores
Jones Manoel, com mais de 1,7 milhão de seguidores, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da esquerda digital. Professor, historiador e autor, comenta temas como desigualdade, democracia e história do movimento comunista. Ganhou notoriedade nacional ao ser citado por Caetano Veloso no Conversa com Bial, o que ampliou seu alcance para além de sua bolha ideológica.
Chico Moedas, por sua vez, tornou-se figura dominante entre públicos jovens e humorados das plataformas digitais. Inicialmente associado ao universo das criptomoedas, ganhou projeção após suas participações nos vídeos do streamer Casimiro Miguel. Sua presença no TikTok e seu relacionamento com a cantora Luísa Sonza reforçaram sua popularidade. O tom irreverente e espontâneo de Chico torna sua eventual entrada na política um experimento singular para o PT, que tradicionalmente privilegia quadros com histórico de militância orgânica.
À procura de uma narrativa para chamar de sua
Após o convite, comentários se dividiram entre curiosidade, entusiasmo e críticas sobre a possível politização de celebridades digitais. Internamente, porém, a leitura é de que a presença de influenciadores pode ampliar o alcance da mensagem petista em um ambiente onde disputas políticas acontecem em tempo real e onde campanhas informais têm impacto tão grande quanto programas de TV.
Especialistas afirmam que as eleições de 2026 devem ser marcadas por forte presença de criadores de conteúdo no debate público, seja como apoiadores, articuladores ou candidatos. Nesse cenário, o gesto de Quaquá aparece como tentativa de antecipar tendências e evitar que a direita siga testando formatos e lançando candidatos influencers enquanto a esquerda permanece presa a modelos tradicionais.
No setor, a esquerda corre atrás da direita
Embora Chico Moedas não tenha se posicionado sobre eventual candidatura, sua aproximação com Jones Manoel, a quem chamou de “meu futuro presidente”, indica alinhamento ideológico em pontos sensíveis. Mesmo assim, o salto da fama digital para o sistema eleitoral envolve riscos: exposição jurídica, entrada no debate político polarizado e necessidade de estrutura partidária.
Dentro do PT, a formalização de qualquer candidatura dependerá de decisões estaduais e nacionais, além do calendário interno de filiações, que costuma ganhar força no primeiro semestre de anos eleitorais. Por ora, o movimento de Quaquá acende um debate sobre quem ocupará o espaço político dos influenciadores mais populares e de que maneira partidos tradicionais pretendem disputar corações e mentes em plataformas que reinventaram a comunicação política. Neste setor, até o momento, a esquerda corre atrás da direita em busca de uma narrativa.
