

Levando-se em conta os conteúdos dos programas de TV do PSD veiculados nos últimos dias e o discurso do prefeito do Rio, Eduardo Paes, feito neste sábado (29/nov), no Seminário Esfera Rio 2025, a sonhada aliança com a direita fluminense não se viabilizou. Um mês após a megaoperação da polícia estadual nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, que matou 122 pessoas, Paes, finalmente, falou sobre o assunto e se posicionou ao lado do presidente Lula, sempre apontado como culpado pelo governador Cláudio Castro (PL) e seus aliados pelo crescimento da violência no Estado do Rio.
Antes da incursão policial, Paes e o governador Cláudio Castro ensaiavam uma parceria eleitoral: o prefeito concorreria ao governo e Castro, impedido de disputar a reeleição, seria candidato ao Senado. O arranjo, porém, dependia de convencer o clã Bolsonaro e a bancada do PL a abraçarem um nome apoiado pelo PT fluminense, um obstáculo que nunca se dissipou.
Paes iniciou esta ousada manobra política de unir a direita e a esquerda no Rio em torno de seu nome, quando constatou a dificuldade dos bolsonaristas em achar um nome nas hostes do PL com musculatura político-eleitoral para disputar a principal cadeira do Palácio Guanabara com alguma chance de vitória. Ele é o favorito nas pesquisas, com mais de 50% dos votos, liquidando o pleito já no primeiro turno.
Paes defende Lula e critica “jogo de empurra” do governo estadual
No seminário, Paes adotou tom contundente contra o governador, defendendo que a responsabilidade constitucional pela segurança pública é dos estados e rebatendo críticas feitas por apoiadores de Castro ao presidente Lula.
“Se a segurança vai mal, a culpa é do governador do Rio e dos outros estados do país. O que está sendo feito é um jogo de empurra, absolutamente ridículo”, afirmou o prefeito, acrescentando. “Lula é presidente do país inteiro. Por que só no Rio a culpa é dele?“.
Desde a operação, Paes vinha sendo cauteloso. Evitou criticar frontalmente a ação policial, que teve apoio da maioria dos cariocas, mas também não a exaltou. Logo após o episódio, viajou a Roma para encontros com autoridades de segurança, buscando projetar atuação na área sem antagonizar diretamente o governo estadual.
Inserções do PSD reforçam discurso e esquece promessa
As inserções partidárias do PSD, que passaram a ir ao ar na última semana, consolidam essa estratégia. Para evitar exposição excessiva de Paes, que ainda não assume pré-candidatura, o partido escalou o deputado federal Pedro Paulo, presidente estadual da sigla, e o secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha. Para vencer no primeiro turno a eleição pra prefeito em 2024, Paes prometeu à população não deixar a cadeira do Palácio da Cidade para ser candidato a governador em 2026.
Pedro Paulo associou diretamente o tema da segurança às mortes no Alemão e na Penha. “O poder público tem que ser implacável com grupos criminosos. Com coragem e serenidade nós podemos virar esse jogo. A hora da mudança vai chegar”, diz o parlamentar no vídeo.
Já Ferreirinha, candidato à reeleição a deputado estadual, argumenta que a gestão reverteu o “abandono” da educação herdada da época de Marcelo Crivella (2017/2020) e que o mesmo caminho pode ser trilhado na segurança.
Força Municipal de Segurança e disputas com o PL
A prefeitura tem tentado ocupar espaço no debate com medidas dentro de sua alçada. A principal é a criação da Força Municipal de Segurança, um núcleo armado de elite vinculado à Guarda Municipal, cujos agentes estão em treinamento e devem começar a atuar em 2026.
Durante a eleição de 2024, Paes foi cobrado pela ausência de propostas na área. O tema foi explorado pelo candidato do PL, Alexandre Ramagem, que fez da segurança o eixo central de sua campanha.
No início deste ano, Paes intensificou falas públicas criticando o governo estadual pela falta de uma “política de segurança pública”. A megaoperação, porém, deu novo impulso a Cláudio Castro, que ganhou visibilidade nacional e um salto expressivo de seguidores nas redes sociais.
Governador retoma fôlego e reavalia cenário para 2026
Interlocutores do Palácio Guanabara afirmam que Castro, antes visto como um “pato manco”, voltou ao jogo após a megaoperação. O grupo político do governador passou a ventilar a possibilidade de lançar um nome ligado à segurança para disputar o governo em 2026, embora nenhum movimento concreto tenha sido realizado.
A tendência, segundo aliados, é que Castro siga animado com a candidatura ao Senado. Para concorrer, terá de deixar o cargo dentro de quatro meses, conforme exige a legislação eleitoral. Mesmo com a recuperação parcial do governador, a falta de um nome competitivo na direita mantém Paes como favorito. A sinalização do PSD ao colocar segurança pública no centro de suas inserções indica que o prefeito pretende transformar o tema, tradicionalmente dominado por adversários conservadores, em uma bandeira própria para a disputa estadual.
