Em entrevista, Cavaliere critica “lero-lero ultrapassado” do PT na segurança pública e defende megaoperação

Foto: Beth Santos/Prefeitura do Rio

A entrevista de Eduardo Cavaliere, publicada por O Globo nesta manhã, marca uma inflexão importante no cenário político carioca. O vice-prefeito aparece não apenas como aliado imediato de Eduardo Paes, mas como peça central da engrenagem administrativa e provável condutor da cidade caso o prefeito realmente decida disputar o governo do estado em 2026. A conversa traz afirmações fortes sobre segurança pública, críticas ao governo federal por prejuízos causados pela transferência da Susep para Brasília e sinais calculados de distensão com o governador Cláudio Castro.

Cavaliere admitiu que já vive o cotidiano de quem ocupa uma cadeira no mínimo estratégica na administração. Deixou claro que o jogo é de quem está no campo e que a responsabilidade de tocar a cidade, com ou sem Paes, faz parte do processo natural de quem exerce a vice-prefeitura. Embora Paes mantenha silêncio sobre seu futuro eleitoral, o vice deixa claro que a sucessão já é tratada como possibilidade real. “Paes é o melhor gestor, o único com autoridade para fazer as mudanças necessárias”, diz. Nesse contexto, cita que uma neutralidade do PSD na disputa presidencial poderia atrair mais apoios e evitar que a eleição carioca seja arrastada para a polarização nacional. Para ele, adotar a neutralidade parece ter deixado de ser uma opção, passando a ser quase uma necessidade.

O trecho mais veemente da entrevista envolve a segurança pública, preocupação de 8 entre 10 fluminenses. Cavaliere criticou abertamente a política de segurança do governo Lula, afirmando que o debate federal permanece preso a ideias superadas. Segundo ele, “pensamos diferente do lero-lero ultrapassado do PT e de Lula na segurança”, frase que já repercute entre aliados e opositores. Em sua avaliação, a postura do governo federal durante operações recentes teria atrapalhado a cidade. Cavaliere avaliou que parte das críticas vindas do governo federal não parece ter contribuído para a realidade complexa da segurança na cidade. “Se tiver resistência numa operação, diante de bandidos armados (…) eles têm que ser neutralizados”, bate firme o vice, que todavia cita a ausência de uma política maior durante os 7 anos de governo de Castro.

Na reportagem intitulada “Operação letal ou efetiva? O Rio de Janeiro precisa de mais ação e menos bandidos”, o Diário do Rio, na contramão da mídia que chamou a operação simplesmente de “a mais letal”, descreveu a megaoperação nas favelas da Penha e do Complexo do Alemão como um “sucesso estrondoso”: citando que foram apreendidos mais de cem fuzis, presos dezenas de suspeitos e mais de cem criminosos foram neutralizados — infelizmente com o sacrifício de quatro policiais, únicas vítimas daquela noite. O texto reconheceu que a ação policial teve “inteligência, acerto e necessidade”, conclamando o Estado a repetir intervenções semelhantes para retomar o controle dos territórios ocupados por facções.  

Ao tratar da relação com Cláudio Castro, Cavaliere buscou equilíbrio, reconhecendo divergências políticas, mas evitando confrontos diretos. Disse que, após a operação no Complexo do Alemão — marcada por 22 mortes e classificada por ele como “bem-sucedida” — o ambiente político foi influenciado pela opinião pública. Afirmou ainda que Paes sempre manteve diálogo institucional com o governador e que essa postura deve ser preservada. Pelo que se infere da fala do vice-prefeito, as diferenças entre Castro e Paes de fato existem, mas nunca impediram a cooperação: “na eleição do ano passado, claro, foi possível pontuar as diferenças”.

A entrevista também abordou a ADPF das Favelas e as limitações impostas pelo STF às operações policiais que transformaram a cidade em paraíso para criminosos de todo o país, que passaram a se esconder nas favelas cariocas. Cavaliere ponderou que o Rio vive situações que exigem firmeza e capacidade de resposta. Para ele, a judicialização constante das operações nem sempre corresponde às urgências da cidade. “Ela havia se tornado uma desculpa para aqueles que deveriam comandar a segurança pública”, resumiu, revelando que o prefeito chegou a se reunir com ministros do STF e despachar com eles atuando para acabar com os efeitos da ADPF. E foi duro: “precisamos retomar territórios e enfrentar criminosos armados”.

Cavaliere criticou duramente a retirada das operações da Susep – Superintendência de Seguros – do Rio de Janeiro, que ajuda a esvaziar o ambiente de negócios da cidade. Reclamou da atuação de Fernando Haddad neste caso, citando que o prefeito, aliado de primeira ordem de Lula e seu maior defensor dentro do PSD, foi ignorado na tomada de decisão e sequer recebeu a informação com antecedência. Foram perdidos mais de 20.000 empregos na cidade com a desastrosa decisão do governo Lula. A entrevistadora tentou minimizar o fato, chamando de “pelo em ovo”, e ele insistiu no assunto, demonstrando firmeza. O político de 31 anos tomou cuidado durante toda sua exposição em diferenciar o presidente de sua equipe e apoiadores, e não poupou o tom de crítica a pessoas como Marcelo Freixo e Benedita da Silva.

A entrevista deixa clara a movimentação do tabuleiro político. Cavaliere vem se projetando como um nome apropriado para assumir o comando da cidade, preserva a relação institucional com Castro, endurece o discurso sobre segurança – como deve ser dado o momento em que vivemos – e tenta reposicionar o Rio fora da disputa nacional entre Lula e Bolsonaro, até para evitar que os reflexos desta polarização atrapalhem a disputa ao governo do Estado. Empresários vem comentando sobre sua boa interlocução com os diversos meios empresariais, e sua atuação colada a Paes vem gerando uma sensação de que está mais que preparado para assumir a cidade, embora sempre evite falar no assunto. Inspirado no Prefeito, cai no samba, abraça o povo, e não tem medo de aparecer como político “carioca da gema”. Há quem diga que sua empolgação pelo Reviver Centro seja similar à do atual chefe e que a visão de cidade é mesmo muito parecida. Da entrevista, fica a mensagem de que a neutralidade na política nacional não enfraquece — ao contrário, pode ser o caminho para fortalecer o projeto político do Rio em um 2026 que se anuncia turbulento. Afinal, já dizia a sabedoria popular: Prefeito é Síndico, não precisa ser nem de esquerda nem de direita, e sim cuidar da cidade: coisa que Cavaliere indica estar preparado pra fazer.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

NOTÍCIA