

Em uma sequência de decisões publicadas em edição extraordinária do Diário Oficial desta quinta-feira (18), o presidente em exercício da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Guilherme Delaroli (PL), determinou o arquivamento de duas das principais Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) da Casa, promoveu mudanças no comando da segurança e reformulou cargos estratégicos da estrutura administrativa. As medidas, tomadas no contexto da transição no comando do Legislativo, foram interpretadas nos bastidores como um gesto de distanciamento do grupo do presidente afastado Rodrigo Bacellar (União) e de aproximação com o governador Cláudio Castro (PL).
As CPIs encerradas, a dos Serviços Delegados, que apurava a atuação de concessionárias e agências reguladoras, e a da Transparência, estavam entre as mais combativas da atual legislatura e vinham impondo desgaste ao governo estadual. Ambas haviam sido instaladas durante a gestão de Bacellar e eram conduzidas por parlamentares alinhados ao ex-presidente da Casa.
CPIs encerradas por vencimento de prazo
Segundo nota divulgada pela assessoria de Delaroli, o arquivamento ocorreu porque os prazos regimentais das comissões estavam vencidos. A presidência sustenta que a decisão tem caráter “estritamente técnico” e se insere no processo de transição administrativa em curso.
“As referidas comissões já estavam com o prazo de continuidade vencido. A decisão do presidente em exercício da Alerj, Guilherme Delaroli, pelo arquivamento, é estritamente técnica, e decorre da transição que está sendo implementada. A presidência seguirá analisando os prazos vigentes de todas as comissões em aberto”, diz a nota.
Na prática, porém, o encerramento põe fim a investigações que vinham tendo forte repercussão política. Entre os principais integrantes das CPIs estavam deputados como Rodrigo Amorim, do União Brasil e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ); Alan Lopes (PL), Filippe Poubel (PL), todos identificados como aliados de Bacellar e críticos frequentes do Executivo estadual.
Troca no comando da segurança da Casa
No mesmo pacote de decisões, Delaroli exonerou o delegado Marcus Vinícius Amim do cargo de superintendente do Departamento de Segurança da Alerj. Amim havia sido nomeado em setembro deste ano por Bacellar, poucos dias depois de ter sido exonerado pelo governador Cláudio Castro da Secretaria de Estado de Polícia Civil.
À época, a nomeação foi interpretada como um gesto de enfrentamento institucional do então presidente da Alerj ao Palácio Guanabara. Amim havia comandado a Polícia Civil por cerca de dez meses, após ser alçado ao cargo em 2023 por meio de uma alteração na Lei Orgânica da corporação, que reduziu o tempo mínimo de carreira exigido para o posto. Ele acabou substituído pelo delegado Felipe Curi, indicação de confiança do governador.
A exoneração agora reforça o redesenho das forças internas na Alerj e o esvaziamento de quadros ligados à gestão anterior.
“República de Itaboraí” ganha espaço na Alerj
Além do arquivamento das CPIs e das exonerações, Delaroli promoveu uma ampla reorganização administrativa que ampliou a presença de aliados com atuação em Itaboraí, município da Região Metropolitana do Rio. O presidente em exercício nomeou Elber Corrêa como novo chefe de gabinete da Alerj. Vice-prefeito da cidade, Corrêa é irmão do prefeito Marcelo Delaroli (PL), consolidando o que deputados da oposição passaram a chamar, nos bastidores, de “República de Itaboraí” no comando do Legislativo.
Elber Corrêa assume a vaga deixada por Rui Bulhões, exonerado na última terça-feira (16). Ex-braço direito de Bacellar, Bulhões foi alvo, no mesmo dia de sua saída, de mandados de busca e apreensão na segunda fase da Operação Unha e Carne, que investiga a relação de políticos com integrantes do Comando Vermelho.
Na mesma data, outros nomes da cúpula administrativa também foram desligados, como o diretor-geral Marcos André Riscado de Brito e o procurador Robson Tadeu de Castro Maciel Júnior.
Para recompor a estrutura, Delaroli nomeou Pedro Ricardo Ferreira como novo procurador-geral da Alerj. Ele já havia exercido a função em Itaboraí entre 2021 e 2023 e, até então, estava lotado na Secretaria de Governo do município. Já o cargo de diretor-geral passou a ser ocupado por Luciano Martins Abreu, que atuava como assessor na Secretaria Municipal de Serviços Públicos.
Sinais políticos da transição
Embora oficialmente justificadas como decisões administrativas e regimentais, as mudanças ocorrem em um momento de forte disputa interna pelo controle da Alerj e são vistas como um reposicionamento político da Casa. Ao encerrar CPIs que tensionavam a relação com o Executivo e afastar quadros ligados a Bacellar, Delaroli envia um sinal claro de alinhamento ao governador Cláudio Castro, de quem é correligionário.
Nos corredores do Palácio Tiradentes, a avaliação é de que a nova composição da cúpula administrativa pode influenciar não apenas o ritmo das investigações legislativas, mas também a pauta de votações e a relação institucional entre a Alerj e o governo do estado nos próximos meses.
