Passado um ano da chegada do primeiro voo de brasileiros deportados dos Estados Unidos na chamada era Trump 2.0, as denúncias de violações de direitos humanos feitas por passageiros da aeronave seguem sem apuração efetiva.
Apesar da mobilização anunciada pelo governo federal na época, as investigações não saíram do lugar e ninguém foi responsabilizado pelo episódio, responsável por gerar a primeira crise diplomática entre o Brasil, comandado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e os Estados Unidos, de Donald Trump.
A aeronave norte-americana partiu da Louisiana, nos Estados Unidos, com 158 passageiros — entre eles 88 brasileiros — na madrugada do dia 24 de janeiro. A operação, no entanto, não seguiu como planejado. Após falhas mecânicas e problemas no sistema de ar-condicionado, o avião fez um pouso de emergência em Manaus (AM).
Desesperados, alguns passageiros conseguiram subir na asa do avião e, algemados e acorrentados, conseguiram expor as condições degradantes que estavam sendo submetidos.
Durante a viagem, os deportados relataram agressões, uso prolongado de algemas e correntes, restrições de acesso ao banheiro e condições consideradas insalubres dentro da aeronave. A experiência foi descrita por eles como uma “tortura” e um “inferno”, dando origem a denúncias de violações de direitos humanos cometidas sob custódia de agentes norte-americanos.
Na série de reportagens Deportados dos EUA: um ano do voo que expôs a nova política migratória de Trump, o Metrópoles investiga os desdobramentos do primeiro voo de brasileiros deportados dessa nova fase. A apuração reúne relatos de quem foi expulso do país, o cruzamento de dados brasileiros e norte-americanos e a resposta do governo Lula às denúncias de violações de direitos humanos.

Denúncias de violações de direitos humanos
Durante o trajeto, antes mesmo da escala no Panamá, os passageiros perceberam falhas mecânicas na aeronave. “O avião já decolou forçado, dando aqueles baque, o ar-condicionado pifou”, relembra, em relato ao Metrópoles, Aeliton Candido de Andrade, de 34 anos, morador de Divinópolis (MG), que estava no voo.
Segundo relatos dos passageiros, os problemas no sistema de refrigeração e a presença de fumaça na cabine tornaram a viagem insustentável.
“Foi aquele pavor. A gente tudo acorrentado, algemado pelas mãos, pela barriga e pelos pés. Eles não estavam deixando as pessoas irem ao banheiro. Sem ar-condicionado, o avião desligado, crianças chorando… Foi quando começaram as provocações, achando que a gente não ia entender”, conta Aeliton.
Em inglês, os agentes xingavam os repatriados de “porcos” e “lixo”. Quatro horas após o pouso forçado na capital amazonense, a situação que, até então, ocorria longe dos olhos das autoridades e da imprensa brasileira, foi exposta.
Algemados e acorrentados, brasileiros que estavam no voo conseguiram subir na asa do avião e denunciaram abusos e maus-tratos dos agentes norte-americanos responsáveis pela custódia. As imagens circularam rapidamente e provocaram reação imediata das autoridades federais.
Assista ao relato completo de Aeliton Candido de Andrade, passageiro do primeiro voo de deportados da nova era Trump:
A Força Aérea Brasileira assumiu a responsabilidade de concluir a viagem, transportando os brasileiros até o Aeroporto Internacional de Confins, em Belo Horizonte, onde o grupo desembarcou no dia 25 de janeiro de 2025.
Na chegada, os deportados falaram com a imprensa e relataram agressões físicas, condições insalubres e situações de pânico durante o voo, incluindo passageiros com problemas respiratórios e crianças.
O calendário de deportações
Primeiro ano do segundo mandato de Trump, o ano de 2025 registrou o recorde de brasileiros deportados dos Estados Unidos, com 3.526 pessoas trazidas de volta. Em um intervalo de 12 meses, 37 voos fretados pelo Serviço de Imigração dos Estados Unidos (ICE) pousaram no Brasil. Confira a data de todos os desembarques:
- Janeiro: dia 26
- Fevereiro: dias 7 e 21
- Março: dias 15 e 28
- Abril: dias 11 e 25
- Maio: dias 9 e 24
- Junho: dias 7 e 21
- Julho: dias 2, 4, 18 e 25
- Agosto: dias 7, 13, 20 e dois voos no dia 27
- Setembro: dias 3, 10, 17 e 24
- Outubro: dias 1º, 8, 15, 22 e 29
- Novembro: dias 5, 12, 19 e 27
- Dezembro: dias 7, 14, 22 e 31
Reação do governo Lula
O pouso forçado do voo em Manaus expôs as denúncias de violações de direitos humanos de forma inédita e obrigou o governo brasileiro a reagir publicamente.
À época, o episódio foi classificado pelo próprio governo como um flagrante desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos. Ministros, parlamentares e órgãos de direitos humanos anunciaram mobilização e prometeram apuração rigorosa das denúncias.
A então ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, classificou o caso como grave e afirmou que as denúncias envolviam possíveis violações de direitos fundamentais, incluindo situações que afetariam pessoas com problemas de saúde e possíveis deficiências.
Em declarações públicas, a ministra disse que o governo brasileiro acompanharia o caso, registraria os relatos dos deportados e buscaria esclarecimentos sobre todo o processo de deportação.
A mobilização se estendeu ao Itamaraty, que passou a tratar o episódio como uma questão diplomática sensível. O Ministério das Relações Exteriores indicou que dialogaria com autoridades norte-americanas para cobrar explicações sobre as condições do voo e o uso de algemas e correntes em cidadãos brasileiros, prática que o governo avaliou como incompatível com padrões mínimos de dignidade humana.
No Congresso Nacional, deputados da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara classificaram o episódio como grave e cobraram providências do Executivo.
Parlamentares defenderam que o governo brasileiro não poderia tratar o caso apenas como um problema de acolhimento, mas como uma possível violação de direitos humanos cometida contra cidadãos brasileiros sob custódia de um Estado estrangeiro.
Deputados e senadores cobraram providências, defenderam audiências públicas e chegaram a levantar a possibilidade de investigações legislativas para apurar eventual descumprimento de acordos internacionais.
As denúncias foram tratadas, naquele momento, como um marco da nova política migratória dos Estados Unidos e como um teste para a capacidade do Estado brasileiro de reagir a abusos cometidos contra seus cidadãos no exterior.
Apesar da mobilização pública e das promessas de apuração, um ano depois os desdobramentos concretos das denúncias seguem indefinidos.
Um ano após o voo
Na prática, a resposta institucional ficou restrita ao campo administrativo. O próprio Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reconhece os limites de atuação.
Em nota, o ministério diz acompanhar, desde 2025, os relatos apresentados por brasileiros deportados dos Estados Unidos, mas que eventuais medidas de natureza investigativa ou diplomática dependem da atuação articulada com os órgãos competentes do Estado brasileiro, como o Ministério das Relações Exteriores (MRE).
Até a publicação desta reportagem, o Itamaraty não havia respondido aos questionamentos do Metrópoles sobre a atuação no episódio. O espaço segue aberto.
O MDHC sustenta que os relatos serviram para fortalecer ações preventivas e orientar a formulação de políticas públicas voltadas à proteção de brasileiros repatriados e deportados.
Como resposta estruturante, o ministério criou o Programa Aqui é Brasil, formalizado em agosto de 2025, com foco no acolhimento humanitário de pessoas em retorno forçado.
O programa prevê apoio psicossocial, atendimento em saúde, orientação sobre acesso a políticas públicas e incentivo à integração socioeconômica. Segundo o órgão, 3.010 pessoas em situação de retorno ao país, provenientes dos Estados Unidos, já foram atendidos pela política pública.
Também está prevista para este ano a implantação de um Centro de Referência em Direitos Humanos e Fronteiras no Aeroporto Internacional de Confins (MG), com atendimento multidisciplinar, apoio documental, orientação e ações de prevenção de violações. O posto havia sido prometido ainda no início de 2025.
As iniciativas, no entanto, se concentram no momento imediato do pós-chegada. Os brasileiros deportados ouvidos pelo Metrópoles afirmam que, em nenhum momento foram contatados por autoridades após deixarem o aeroporto. Além disso, os relatos apontam para dificuldade de contato com o consulado brasileiro, enquanto ainda estavam detidos nos Estados Unidos.
Até o momento, os deportados do primeiro voo não receberam respostas. Na ausência de uma investigação articulada entre os órgãos competentes, o caso permanece sem responsabilização — e com promessas que não saíram do papel.
Passado um ano da chegada do primeiro voo de brasileiros deportados dos Estados Unidos na chamada era Trump 2.0, as denúncias de violações de direitos humanos feitas por passageiros da aeronave seguem sem apuração efetiva.
Apesar da mobilização anunciada pelo governo federal na época, as investigações não saíram do lugar e ninguém foi responsabilizado pelo episódio, responsável por gerar a primeira crise diplomática entre o Brasil, comandado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e os Estados Unidos, de Donald Trump.
A aeronave norte-americana partiu da Louisiana, nos Estados Unidos, com 158 passageiros — entre eles 88 brasileiros — na madrugada do dia 24 de janeiro. A operação, no entanto, não seguiu como planejado. Após falhas mecânicas e problemas no sistema de ar-condicionado, o avião fez um pouso de emergência em Manaus (AM).
Desesperados, alguns passageiros conseguiram subir na asa do avião e, algemados e acorrentados, conseguiram expor as condições degradantes que estavam sendo submetidos.
Durante a viagem, os deportados relataram agressões, uso prolongado de algemas e correntes, restrições de acesso ao banheiro e condições consideradas insalubres dentro da aeronave. A experiência foi descrita por eles como uma “tortura” e um “inferno”, dando origem a denúncias de violações de direitos humanos cometidas sob custódia de agentes norte-americanos.
Na série de reportagens Deportados dos EUA: um ano do voo que expôs a nova política migratória de Trump, o Metrópoles investiga os desdobramentos do primeiro voo de brasileiros deportados dessa nova fase. A apuração reúne relatos de quem foi expulso do país, o cruzamento de dados brasileiros e norte-americanos e a resposta do governo Lula às denúncias de violações de direitos humanos.

Denúncias de violações de direitos humanos
Durante o trajeto, antes mesmo da escala no Panamá, os passageiros perceberam falhas mecânicas na aeronave. “O avião já decolou forçado, dando aqueles baque, o ar-condicionado pifou”, relembra, em relato ao Metrópoles, Aeliton Candido de Andrade, de 34 anos, morador de Divinópolis (MG), que estava no voo.
Segundo relatos dos passageiros, os problemas no sistema de refrigeração e a presença de fumaça na cabine tornaram a viagem insustentável.
“Foi aquele pavor. A gente tudo acorrentado, algemado pelas mãos, pela barriga e pelos pés. Eles não estavam deixando as pessoas irem ao banheiro. Sem ar-condicionado, o avião desligado, crianças chorando… Foi quando começaram as provocações, achando que a gente não ia entender”, conta Aeliton.
Em inglês, os agentes xingavam os repatriados de “porcos” e “lixo”. Quatro horas após o pouso forçado na capital amazonense, a situação que, até então, ocorria longe dos olhos das autoridades e da imprensa brasileira, foi exposta.
Algemados e acorrentados, brasileiros que estavam no voo conseguiram subir na asa do avião e denunciaram abusos e maus-tratos dos agentes norte-americanos responsáveis pela custódia. As imagens circularam rapidamente e provocaram reação imediata das autoridades federais.
Assista ao relato completo de Aeliton Candido de Andrade, passageiro do primeiro voo de deportados da nova era Trump:
A Força Aérea Brasileira assumiu a responsabilidade de concluir a viagem, transportando os brasileiros até o Aeroporto Internacional de Confins, em Belo Horizonte, onde o grupo desembarcou no dia 25 de janeiro de 2025.
Na chegada, os deportados falaram com a imprensa e relataram agressões físicas, condições insalubres e situações de pânico durante o voo, incluindo passageiros com problemas respiratórios e crianças.
O calendário de deportações
Primeiro ano do segundo mandato de Trump, o ano de 2025 registrou o recorde de brasileiros deportados dos Estados Unidos, com 3.526 pessoas trazidas de volta. Em um intervalo de 12 meses, 37 voos fretados pelo Serviço de Imigração dos Estados Unidos (ICE) pousaram no Brasil. Confira a data de todos os desembarques:
- Janeiro: dia 26
- Fevereiro: dias 7 e 21
- Março: dias 15 e 28
- Abril: dias 11 e 25
- Maio: dias 9 e 24
- Junho: dias 7 e 21
- Julho: dias 2, 4, 18 e 25
- Agosto: dias 7, 13, 20 e dois voos no dia 27
- Setembro: dias 3, 10, 17 e 24
- Outubro: dias 1º, 8, 15, 22 e 29
- Novembro: dias 5, 12, 19 e 27
- Dezembro: dias 7, 14, 22 e 31
Reação do governo Lula
O pouso forçado do voo em Manaus expôs as denúncias de violações de direitos humanos de forma inédita e obrigou o governo brasileiro a reagir publicamente.
À época, o episódio foi classificado pelo próprio governo como um flagrante desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos. Ministros, parlamentares e órgãos de direitos humanos anunciaram mobilização e prometeram apuração rigorosa das denúncias.
A então ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, classificou o caso como grave e afirmou que as denúncias envolviam possíveis violações de direitos fundamentais, incluindo situações que afetariam pessoas com problemas de saúde e possíveis deficiências.
Em declarações públicas, a ministra disse que o governo brasileiro acompanharia o caso, registraria os relatos dos deportados e buscaria esclarecimentos sobre todo o processo de deportação.
A mobilização se estendeu ao Itamaraty, que passou a tratar o episódio como uma questão diplomática sensível. O Ministério das Relações Exteriores indicou que dialogaria com autoridades norte-americanas para cobrar explicações sobre as condições do voo e o uso de algemas e correntes em cidadãos brasileiros, prática que o governo avaliou como incompatível com padrões mínimos de dignidade humana.
No Congresso Nacional, deputados da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara classificaram o episódio como grave e cobraram providências do Executivo.
Parlamentares defenderam que o governo brasileiro não poderia tratar o caso apenas como um problema de acolhimento, mas como uma possível violação de direitos humanos cometida contra cidadãos brasileiros sob custódia de um Estado estrangeiro.
Deputados e senadores cobraram providências, defenderam audiências públicas e chegaram a levantar a possibilidade de investigações legislativas para apurar eventual descumprimento de acordos internacionais.
As denúncias foram tratadas, naquele momento, como um marco da nova política migratória dos Estados Unidos e como um teste para a capacidade do Estado brasileiro de reagir a abusos cometidos contra seus cidadãos no exterior.
Apesar da mobilização pública e das promessas de apuração, um ano depois os desdobramentos concretos das denúncias seguem indefinidos.
Um ano após o voo
Na prática, a resposta institucional ficou restrita ao campo administrativo. O próprio Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reconhece os limites de atuação.
Em nota, o ministério diz acompanhar, desde 2025, os relatos apresentados por brasileiros deportados dos Estados Unidos, mas que eventuais medidas de natureza investigativa ou diplomática dependem da atuação articulada com os órgãos competentes do Estado brasileiro, como o Ministério das Relações Exteriores (MRE).
Até a publicação desta reportagem, o Itamaraty não havia respondido aos questionamentos do Metrópoles sobre a atuação no episódio. O espaço segue aberto.
O MDHC sustenta que os relatos serviram para fortalecer ações preventivas e orientar a formulação de políticas públicas voltadas à proteção de brasileiros repatriados e deportados.
Como resposta estruturante, o ministério criou o Programa Aqui é Brasil, formalizado em agosto de 2025, com foco no acolhimento humanitário de pessoas em retorno forçado.
O programa prevê apoio psicossocial, atendimento em saúde, orientação sobre acesso a políticas públicas e incentivo à integração socioeconômica. Segundo o órgão, 3.010 pessoas em situação de retorno ao país, provenientes dos Estados Unidos, já foram atendidos pela política pública.
Também está prevista para este ano a implantação de um Centro de Referência em Direitos Humanos e Fronteiras no Aeroporto Internacional de Confins (MG), com atendimento multidisciplinar, apoio documental, orientação e ações de prevenção de violações. O posto havia sido prometido ainda no início de 2025.
As iniciativas, no entanto, se concentram no momento imediato do pós-chegada. Os brasileiros deportados ouvidos pelo Metrópoles afirmam que, em nenhum momento foram contatados por autoridades após deixarem o aeroporto. Além disso, os relatos apontam para dificuldade de contato com o consulado brasileiro, enquanto ainda estavam detidos nos Estados Unidos.
Até o momento, os deportados do primeiro voo não receberam respostas. Na ausência de uma investigação articulada entre os órgãos competentes, o caso permanece sem responsabilização — e com promessas que não saíram do papel.
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