Como está vida do deportado que beijou o chão ao chegar no Brasil

Quando César Diego Justino, de 40 anos, desceu do avião em solo brasileiro e beijou o chão, em fevereiro de 2025, o gesto reverberou como símbolo de alívio e emoção. César retornava dos Estados Unidos após quatro meses preso em um centro de detenção por entrar ilegalmente no país. A imagem registrada no Aeroporto de Fortaleza tornou-se um dos exemplos do impacto da política anti-imigração de Donald Trump.

Quase um ano depois, ele tenta reconstruir a vida do zero no Brasil com o apoio da família. O recomeço, no entanto, carrega marcas profundas: prejuízo financeiro, frustração e a sensação de ter sido abandonado pelo Estado brasileiro.

Na série de reportagens Deportados dos EUA: um ano do voo que expôs a nova política migratória de Trump, o Metrópoles investiga os desdobramentos dos primeiros voos de brasileiros deportados por Trump a partir do relato de quem foi expulso no país, do cruzamento de dados brasileiros e norte-americanos e da resposta do governo Lula às denúncias de violações de direitos.

O sonho americano

Corretor de imóveis em Caldas Novas (GO), César imigrou em agosto de 2024, movido por um sonho antigo. “Eu sempre tive o projeto de conhecer a América Central e de tentar uma vida melhor nos Estados Unidos”, afirma.

A situação financeira no Brasil não era desesperadora. Ainda assim, ele acreditava que poderia conquistar mais estabilidade para a família em outro país. O plano era ficar cerca de cinco anos e, depois, levar a esposa e os filhos.

Sem atravessadores, os chamados coiotes, César e um primo saíram de Brasília rumo ao Panamá e seguiram pela América Central até a fronteira dos norte-americana. Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e México entraram no mapa da travessia. “Ouvi histórias muito tristes, principalmente de venezuelanos que vinham a pé, com crianças, meses na estrada. É muito sofrimento”, relembra.

Ao chegar aos Estados Unidos, César se apresentou às autoridades migratórias e pediu asilo. Foi detido no Texas, onde passou quatro meses em centros de detenção.

As condições materiais, segundo ele, eram organizadas: alimentação regular e estrutura básica. Para ocupar o tempo, o brasileiro passou a fazer parte da equipe da cozinha.

O juiz chegou a autorizar o andamento do pedido de asilo, mas exigiu a apresentação de documentos dentro do prazo. César não conseguiu reunir tudo a tempo e o caso foi encerrado por “abandono”.

“O momento que mais me marcou foi quando o juiz disse que não ia me esperar mais. Era Natal. Ele até me desejou feliz Natal”, lembra. “Lá não tem jeitinho. Perdeu o prazo, acabou.”

Durante a detenção, César afirma não ter recebido apoio do consulado brasileiro. “Se você ligar, não consegue falar. É muito precário. A sensação é: você foi imigrante, agora se vira.”

O sentimento de desamparo, segundo ele, foi constante.

Deportados dos EUA subiram em asa de avião para pedir ajuda
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Deportados dos EUA subiram em asa de avião para pedir ajuda

Reprodução

Brasileiros deportados chegando algemados ao Brasil
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Brasileiros deportados chegando algemados ao Brasil

Reprodução

Deportados em avião da FAB, rumo a Belo Horizonte
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Deportados em avião da FAB, rumo a Belo Horizonte

FAB

Brasileiros deportados no aeroporto de Manaus
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Brasileiros deportados no aeroporto de Manaus

Reprodução / X

Fila de deportados em Manaus
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Fila de deportados em Manaus

ICE/EUA


Maus-tratos marcaram o 2º voo

  • Parte dos 111 deportados dos Estados Unidos que desembarcaram com César Diego Justino, no dia 7 de fevereiro de 2025, no Aeroporto de Fortaleza, relataram que sofreram maus-tratos durante o voo.
  • Os brasileiros ficaram todo o trajeto algemados, acorrentados e com fome.
  • “Eles estavam acorrentados, estavam com algema, mas quando eles desceram do avião já estavam soltos. Vieram muito machucados emocionalmente, eles sofreram muito”, disse a secretária dos Direitos Humanos do Estado do Ceará, Socorro França, após conversar com os brasileiros.
  • Socorro França disse que os deportados estavam presos, sem quase nenhuma oferta de alimento.

Voo de repatriação

O retorno de César ao Brasil ocorreu no segundo voo de deportados da chamada era Trump 2.0, que partiu do estado de Louisiana, nos EUA.

O embarque, de acordo com ele, ocorreu de madrugada, sem aviso prévio. Apesar da tensão, o corretor de imóveis disse ter sentido alívio. “A tristeza tinha acabado. Voltar para a família não tem preço.”

Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Fortaleza, César se ajoelhou e beijou o chão. A cena, registrada em vídeo, viralizou nas redes sociais e tornou-se símbolo das deportações em massa promovidas pelo governo Trump.

Ao todo, 111 brasileiros desembarcaram em Fortaleza no dia 7 de fevereiro de 2025. Parte do grupo seguiu depois para Belo Horizonte, em aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB).

Segundo Cesar, informações, apoio ou orientações do governo brasileiro só apareceram após o pouso em Fortaleza. “Antes disso, nada. Zero.”

Na chegada, houve recepção oficial, kits de higiene e encaminhamento básico. Depois, silêncio. “Nunca mais entraram em contato comigo. Não tive orientação sobre trabalho, documentos, assistência. Nada.”

Reconstrução

Um ano depois, César afirma que conseguiu se reerguer. Trabalha como corretor de imóveis e também em uma concessionária de energia em Goiás.

A rotina hoje é estável, mas as marcas permanecem. O prejuízo financeiro gira em torno de R$ 100 mil — gastos para tentar realizar o sonho de entrar nos Estados Unidos. “Não é fácil recuperar”, desabafa. Mas César conta que o maior impacto é o simbólico: a sensação de rejeição.

“Você se sente expulso de um país, um nada perante aquela nação.”

A principal rede de apoio foi a família. Pais, esposa e filhos sustentaram o recomeço. Psicologicamente, César diz ter conseguido manter a cabeça firme. Ainda assim, ele não esconde a crítica. “O governo brasileiro deixou a desejar. Eu me senti esquecido pelo Estado.”

Através de nota, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) diz acompanhar, desde 2025, os relatos apresentados por brasileiros deportados dos Estados Unidos, promovendo o registro e a análise das informações no âmbito das competências institucionais.

Apesar disso, eventuais medidas de natureza investigativa ou diplomática dependem da atuação articulada com os órgãos competentes do Estado brasileiro, como o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Até a publicação desta reportagem o Itamaraty não havia respondido as demandas do Metrópoles acerca da atuação no caso.

Como resposta estruturante ao episódio, o MDHC afirma ter instituído o Programa Aqui é Brasil, formalizado pela Portaria Conjunta nº 2, de 4 de agosto de 2025. O texto estabelece diretrizes para o acolhimento humanitário de brasileiros repatriados e deportados, com oferta de apoio psicossocial, atendimento em saúde, orientação sobre acesso a políticas públicas e incentivo à integração socioeconômica.

Hoje, César Justino não pensa mais em deixar o Brasil. O episódio virou aprendizado. “Se é seu sonho, vá do jeito certo. Ir ilegal é humilhante, sofrido. Eu não aconselho.”

O beijo no chão marcou o fim do sonho americano de Cesar. O que veio depois, longe dos holofotes, expõe uma realidade incômoda: deportações não terminam no pouso.

Sem políticas públicas de acolhimento e reintegração, o retorno é apenas o começo de uma luta silenciosa, individual e, muitas vezes, invisível.



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Quando César Diego Justino, de 40 anos, desceu do avião em solo brasileiro e beijou o chão, em fevereiro de 2025, o gesto reverberou como símbolo de alívio e emoção. César retornava dos Estados Unidos após quatro meses preso em um centro de detenção por entrar ilegalmente no país. A imagem registrada no Aeroporto de Fortaleza tornou-se um dos exemplos do impacto da política anti-imigração de Donald Trump.

Quase um ano depois, ele tenta reconstruir a vida do zero no Brasil com o apoio da família. O recomeço, no entanto, carrega marcas profundas: prejuízo financeiro, frustração e a sensação de ter sido abandonado pelo Estado brasileiro.

Na série de reportagens Deportados dos EUA: um ano do voo que expôs a nova política migratória de Trump, o Metrópoles investiga os desdobramentos dos primeiros voos de brasileiros deportados por Trump a partir do relato de quem foi expulso no país, do cruzamento de dados brasileiros e norte-americanos e da resposta do governo Lula às denúncias de violações de direitos.

O sonho americano

Corretor de imóveis em Caldas Novas (GO), César imigrou em agosto de 2024, movido por um sonho antigo. “Eu sempre tive o projeto de conhecer a América Central e de tentar uma vida melhor nos Estados Unidos”, afirma.

A situação financeira no Brasil não era desesperadora. Ainda assim, ele acreditava que poderia conquistar mais estabilidade para a família em outro país. O plano era ficar cerca de cinco anos e, depois, levar a esposa e os filhos.

Sem atravessadores, os chamados coiotes, César e um primo saíram de Brasília rumo ao Panamá e seguiram pela América Central até a fronteira dos norte-americana. Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e México entraram no mapa da travessia. “Ouvi histórias muito tristes, principalmente de venezuelanos que vinham a pé, com crianças, meses na estrada. É muito sofrimento”, relembra.

Ao chegar aos Estados Unidos, César se apresentou às autoridades migratórias e pediu asilo. Foi detido no Texas, onde passou quatro meses em centros de detenção.

As condições materiais, segundo ele, eram organizadas: alimentação regular e estrutura básica. Para ocupar o tempo, o brasileiro passou a fazer parte da equipe da cozinha.

O juiz chegou a autorizar o andamento do pedido de asilo, mas exigiu a apresentação de documentos dentro do prazo. César não conseguiu reunir tudo a tempo e o caso foi encerrado por “abandono”.

“O momento que mais me marcou foi quando o juiz disse que não ia me esperar mais. Era Natal. Ele até me desejou feliz Natal”, lembra. “Lá não tem jeitinho. Perdeu o prazo, acabou.”

Durante a detenção, César afirma não ter recebido apoio do consulado brasileiro. “Se você ligar, não consegue falar. É muito precário. A sensação é: você foi imigrante, agora se vira.”

O sentimento de desamparo, segundo ele, foi constante.

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Deportados dos EUA subiram em asa de avião para pedir ajuda
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Deportados dos EUA subiram em asa de avião para pedir ajuda

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Brasileiros deportados chegando algemados ao Brasil
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Brasileiros deportados chegando algemados ao Brasil

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Deportados em avião da FAB, rumo a Belo Horizonte
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Deportados em avião da FAB, rumo a Belo Horizonte

FAB

Brasileiros deportados no aeroporto de Manaus
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Brasileiros deportados no aeroporto de Manaus

Reprodução / X

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Fila de deportados em Manaus

ICE/EUA


Maus-tratos marcaram o 2º voo

  • Parte dos 111 deportados dos Estados Unidos que desembarcaram com César Diego Justino, no dia 7 de fevereiro de 2025, no Aeroporto de Fortaleza, relataram que sofreram maus-tratos durante o voo.
  • Os brasileiros ficaram todo o trajeto algemados, acorrentados e com fome.
  • “Eles estavam acorrentados, estavam com algema, mas quando eles desceram do avião já estavam soltos. Vieram muito machucados emocionalmente, eles sofreram muito”, disse a secretária dos Direitos Humanos do Estado do Ceará, Socorro França, após conversar com os brasileiros.
  • Socorro França disse que os deportados estavam presos, sem quase nenhuma oferta de alimento.

Voo de repatriação

O retorno de César ao Brasil ocorreu no segundo voo de deportados da chamada era Trump 2.0, que partiu do estado de Louisiana, nos EUA.

O embarque, de acordo com ele, ocorreu de madrugada, sem aviso prévio. Apesar da tensão, o corretor de imóveis disse ter sentido alívio. “A tristeza tinha acabado. Voltar para a família não tem preço.”

Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Fortaleza, César se ajoelhou e beijou o chão. A cena, registrada em vídeo, viralizou nas redes sociais e tornou-se símbolo das deportações em massa promovidas pelo governo Trump.

Ao todo, 111 brasileiros desembarcaram em Fortaleza no dia 7 de fevereiro de 2025. Parte do grupo seguiu depois para Belo Horizonte, em aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB).

Segundo Cesar, informações, apoio ou orientações do governo brasileiro só apareceram após o pouso em Fortaleza. “Antes disso, nada. Zero.”

Na chegada, houve recepção oficial, kits de higiene e encaminhamento básico. Depois, silêncio. “Nunca mais entraram em contato comigo. Não tive orientação sobre trabalho, documentos, assistência. Nada.”

Reconstrução

Um ano depois, César afirma que conseguiu se reerguer. Trabalha como corretor de imóveis e também em uma concessionária de energia em Goiás.

A rotina hoje é estável, mas as marcas permanecem. O prejuízo financeiro gira em torno de R$ 100 mil — gastos para tentar realizar o sonho de entrar nos Estados Unidos. “Não é fácil recuperar”, desabafa. Mas César conta que o maior impacto é o simbólico: a sensação de rejeição.

“Você se sente expulso de um país, um nada perante aquela nação.”

A principal rede de apoio foi a família. Pais, esposa e filhos sustentaram o recomeço. Psicologicamente, César diz ter conseguido manter a cabeça firme. Ainda assim, ele não esconde a crítica. “O governo brasileiro deixou a desejar. Eu me senti esquecido pelo Estado.”

Através de nota, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) diz acompanhar, desde 2025, os relatos apresentados por brasileiros deportados dos Estados Unidos, promovendo o registro e a análise das informações no âmbito das competências institucionais.

Apesar disso, eventuais medidas de natureza investigativa ou diplomática dependem da atuação articulada com os órgãos competentes do Estado brasileiro, como o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Até a publicação desta reportagem o Itamaraty não havia respondido as demandas do Metrópoles acerca da atuação no caso.

Como resposta estruturante ao episódio, o MDHC afirma ter instituído o Programa Aqui é Brasil, formalizado pela Portaria Conjunta nº 2, de 4 de agosto de 2025. O texto estabelece diretrizes para o acolhimento humanitário de brasileiros repatriados e deportados, com oferta de apoio psicossocial, atendimento em saúde, orientação sobre acesso a políticas públicas e incentivo à integração socioeconômica.

Hoje, César Justino não pensa mais em deixar o Brasil. O episódio virou aprendizado. “Se é seu sonho, vá do jeito certo. Ir ilegal é humilhante, sofrido. Eu não aconselho.”

O beijo no chão marcou o fim do sonho americano de Cesar. O que veio depois, longe dos holofotes, expõe uma realidade incômoda: deportações não terminam no pouso.

Sem políticas públicas de acolhimento e reintegração, o retorno é apenas o começo de uma luta silenciosa, individual e, muitas vezes, invisível.

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