Durante a gestão de Claudio Castro (PL) no governo do estado do Rio, a Cedae fez aportes milionários no Banco Digimais, que pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. As operações foram realizadas por Antonio Carlos dos Santos, ex-assessor do gabinete do ex-governador e indicado por ele para a Diretoria Financeira e de Relações com Investidores (DFI) da estatal de saneamento básico do Rio.
Os investimentos em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Digimais, feitos desde julho do ano passado, foram renovados mesmo diante de fortes indícios de que a instituição financeira corre risco de quebrar.
Em um movimento mais recente, os recursos passaram para aplicações com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Antonio Carlos foi indicação pessoal do ex-governador para um cargo estratégico na estatal
Pouco antes de assumir o posto de diretor da Cedae, Antonio Carlos dos Santos foi assessor-chefe do gabinete de Cláudio Castro no Palácio Guanabara. Ele foi uma indicação pessoal do ex-governador para um cargo estratégico na estatal, responsável por assinar contratos e decidir investimentos em instituições financeiras. Ele foi o principal responsável pelo investimento de mais de R$ 200 milhões no Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Em nota, a Cedae afirma que “uma das primeiras medidas da atual administração foi mudar a Política de Aplicações Financeiras” com o objetivo de “reforçar mecanismos de governança, controle e mitigar riscos na gestão das aplicações financeiras”. A estatal diz ainda que os investimentos no banco Digimais não serão renovados e os valores serão reaplicados nas “maiores e mais sólidas instituições financeiras do país”.
Já Antonio Carlos dos Santos ressalta que “que todas as alocações de sua carteira estavam em conformidade com a política de aplicações financeiras da Cedae, conforme apuração da auditoria interna”.
O ex-diretor diz ainda que “as decisões de investimento seguiram as normas de governança e a política de aplicações financeiras, tendo sido aprovadas pelas instâncias competentes, incluindo o Conselho de Administração, o Comitê de Auditoria e a Diretoria Executiva”. Ele também nega que não houve “quaisquer interferências externas ou políticas” nas decisões de investimento que tomou.
A primeira remessa milionária no Digimais ocorreu em junho de 2025
A aplicação no Digimais se aproveitou das brechas criadas sob medida para permitir os aportes no Master. Assim como no caso do banco de Vorcaro, as agências de classificação de risco dão um rating baixo para o Digimais, em comparação com diversos concorrentes no mercado financeiro brasileiro.
A primeira remessa milionária no banco de Edir Macedo ocorreu em junho de 2025, quando a Cedae já lidava com a possibilidade de um calote de Vorcaro. O parecer favorável do ex-diretor veio no dia 4 de junho do ano passado.
Ao contrário de várias outras aplicações feitas pela Cedae, o investimento no Digimais não tinha liquidez diária, ou seja, a empresa só poderia resgatar os recursos em 180 dias. Ainda assim, o ex-diretor nomeado por Castro referendou nota técnica feita por seus assessores Hedmilton Mourão Cardoso, Magno Neves Fonseca e Mauro Luis Marques — os mesmos que o auxiliaram a operar os aportes suspeitos no Banco Master. A recomendação era alocar R$ 35 milhões no conglomerado do bispo Macedo.
“A referida emissão constitui oportunidade atrativa para a Cedae, desde que o volume alocado seja inferior a R$ 40 milhões, valor de limite que conta com a garantia especial do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)”, diz trecho do documento.
Uma nova remessa foi feita pouco depois, em agosto do ano passado, quando o ex-diretor e seus assessores repetiram quase integralmente o texto usado para justificar o primeiro investimento. Dessa vez recomendam a apliacção de mais R$ 25 milhões. O prazo para resgate era ainda maior, de 1 ano. Os recursos deveriam ser retirados de um fundo de investimentos operado pelo Itaú.
Banco Digimais, do bispo Macedo, corria risco de quebrar, mas os investimentos continuavam a ser recomendados
Mesmo diante do agravamento da situação do Digimais, o ex-diretor da Cedae e seus assessores seguiram recomendando o investimento no banco. Em 24 de fevereiro de 2026, uma reunião extraordinária do Comitê de Auditoria da Cedae foi convocada para, entre outros assuntos, tratar das preocupações com a situação do banco de Edir Macedo, que chegou a anunciar em janeiro de 2025 a venda da instituição para Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master, por R$ 800 milhões. Contudo, Quadrado desistiu da aquisição em abril.
Segundo a ata do encontro, membros do comitê enfatizaram “os pontos negativos e de riscos de cada instituição financeira onde a Cedae possui investimentos. Diante disso, foi solicitado ao time técnico a conclusão sobre tais investimentos, inclusive a possibilidade de realocação para instituições com melhor rating”, relata o documento.
Em nota técnica feita em 13 de março, Antonio Carlos dos Santos dobrou a aposta. A Diretoria Financeira e de Relações com Investidores (DFI) definiu a situação do Digimais como “negativa”, com “reversão para lucro semestral, melhora de Basileia; prejuízos acumulados e forte dependência de depósitos a prazo”. Mesmo assim, defende a manutenção dos investimentos: “há mitigantes de risco que levam à recomendação da manutenção das atuais posições”.
O fator atenuante, segundo a DFI, seria uma cobertura de até R$ 40 milhões pelo Fundo Garantidor de Crédito em caso de calote. Naquele momento, a Cedae tinha cerca de R$ 39 milhões aplicados no Digimais.
Pouco tempo depois, no final de março, a Fitch Ratings, uma das principais agências de classificação de risco do mundo, rebaixou a nota do banco de Edir Macedo para BB-, classificação já considerada de grau especulativo.
Em 26 de maio, a Moody’s, outra grande agência de classificação de risco do mundo, rebaixou o Digimais para CCC+ –o que representa risco iminente de calote dos investidores.
“O rebaixamento dos ratings do Digimais reflete a avaliação da Moody’s Local Brasil sobre um aumento significativo no risco dos ativos do banco, principalmente devido à sua crescente exposição aos fundos de investimento alternativos ao longo de 2025. Em dezembro de 2025, a carteira de títulos e valores mobiliários, composta majoritariamente por cotas de fundos de investimento, totalizava R$ 4,3 bilhões, correspondendo a cerca de 42% do total de ativos e representando 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco. A qualidade e a recuperabilidade desses investimentos são incertas, como evidenciado pelo parecer de auditoria externa com ressalvas sobre R$ 3,1 bilhões, ou 73% dos fundos reportados, devido às limitações de informações sobre a adequação desses valores”, diz o relatório da Moody’s.
.A Política de Aplicações Financeiras da Cedae em vigor àquela altura vetava aplicações financeiras em instituições com notas tão baixas, mas o saque imediato não foi possível porque os contratos “amarravam” a estatal até a data de vencimento dos investimentos.
Com informações do ICL Notícias.
