Um levantamento da Controladoria Geral do Estado (CGE) iniciado no fim de março apontou que todos os 77 órgãos públicos do governo do estado do Rio tinham funcionários fantasmas. Os comissionados não passam pelas catracas dos locais de trabalho, não faziam login em computadores e nem acessavam o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), usado para criar, tramitar e assinar documentos oficiais.
A atual gestão passou a rastrear, no funcionalismo público do estado, os casos de “alta criticidade” — nome que qualifica os comissionados que, aparentemente, são fantasmas, ou seja, recebiam salário sem dar expediente.
De acordo com apuração do Jornal O Globo, nos últimos meses, estes funcionários, em grande maioria ligados à Alerj, à gestão anterior ou à ex-titulares de pastas estaduais, foram exonerados pelo governador em exercício Ricardo Couto,
Comissionado diz não se lembrar do nome de seu gestor
Um dos cerca de 200 exonerados da Secretaria estadual do Ambiente (Seas), Marcelo Cabral D’Almeida está na lista de “alta criticidade”. Ele afirma que seu trabalho era, majoritariamente, em campo, em visitas técnicas a praças e outros locais públicos na Zona Oeste do Rio, como o Pico da Pedra Branca, mas ao ser questionado, disse não se lembrar do nome de seu próprio gestor.
Filho do ex-vereador e ex-funcionário comissionado do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Marcelino Almeida, Marcelo estava nomeado na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas, com salário de R$ 10.903,66. Ele admitiu que foi indicado ao cargo pelo ex-secretário da pasta e atual deputado estadual Bernardo Rossi (União), mesmo sem possuir formação no campo ambiental.
Em nota, Rossi negou ter nomeado fantasmas e afirmou que parte dos funcionários trabalhavam in loco.

O ex-comissionado integrava uma das duas subsecretarias da Seas que tiveram todos os funcionários exonerados — e em seguida foram extintas pelo atual governo. Na subsecretaria em que trabalhava, haviam 14 cargos, com a maioria dos comissionados indicados pelos irmãos Luciano Vieira (PSDB) e Léo Vieira (Republicanos).
Já na Subsecretaria de Conscientização Ambiental, foram extintas 37 vagas. A estrutura era comandada pela vereadora de Campos dos Goytacazes, Thamires Rangel (PMB), filha do deputado estadual Thiago Rangel (PMB), preso em maio deste ano por suspeitas de envolvimento em fraudes na Secretaria estadual de Educação.
Também em nota, Thamires Rangel defefendeu sua atuação na pasta e negou irregularidades.
Desde 23 de março, já foram exonerados mais de 4.283 comissionados
Outros lotados nessas subsecretarias também apresentaram a justificativa de que faziam trabalhos externos, como Allen Carvalho, líder comunitário na Barreira do Vasco, na Zona Norte do Rio, que recebia salário líquido de R$ 6.040,64 e carga horária de 40 horas semanais na Subsecretaria de Manutenção em Áreas Verdes Urbanas, onde batia “ponto manual”.
Com as exonerações promovidas por Ricardo Couto, a economia estimada até o fim do ano gira em torno de R$ 230 milhões. Só entre março e maio, 1.767 deixaram o governo na condição de fantasmas — o que representa uma economia de quase R$ 15 milhões por mês.
Na Casa Civi foram aproximadamente 1,2 mil exonerados até agora. A pasta teve subsecretarias inteiras extintas: a Adjunta de Projetos Especiais, onde 32 perderam seus cargos, e as de Gastronomia e de Ações Comunitárias e Empreendedorismo, ambas com 11 pessoas lotadas em cada.
Na Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade havia 128 pessoas apenas no gabinete do secretário da pasta, das quais 110 jamais acessaram o sistema. Enquanto isso, em outra secretaria analisada — de Ciência, Tecnologia e Inovação — foi constatado que dos 150 servidores em cargos em comissão, apenas 90 tinham estação de trabalho.
Outro caso de pai e filho analisado pelos auditores do estado
Entre os servidores em cargo comissionado que passaram pelo crivo dos auditores, estão Marcus Wilson Von Seehausen e o filho, João Antonius Von Seehausen. Ambos fazem parte da lista de exonerados, em 30 de abril e 18 de maio, respectivamente.
Lotado na Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade, Marcus, que é natural de Petrópolis, na Região Serrana, recebia salário líquido de R$ 12.212,72. Ele foi presidente do PTB local em 2008, secretário municipal de Administração e Recursos Humanos em 2018 e chefe de gabinete do ex-deputado estadual Marcus Vinicius Nescau (PTB), preso na Operação Furna da Onça, em 2019, que apurou o recebimento de propinas mensais por parlamentares.
Na ocasião, Marcus chegou a ser apontado como responsável por receber os valores destinados ao deputado. Depois, aproximou-se do deputado estadual Bernardo Rossi (União), também de Petrópolis, que foi secretário da pasta.
Enquanto isso, João Von Seehausen, filho de Marcus, tentou uma vaga de vereador em Petrópolis em 2024, pelo MDB, e ficou como suplente. Antes, havia sido lotado na Secretaria das Cidades e, depois da eleição, foi nomeado para a Secretaria da Casa Civil, com salário líquido de R$ 10,3 mil.

Ex-comissionada estava lotada na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes
Moradora de São João de Meriti, Sintilaine Alessandra de Souza Silva estava lotada, entre março e maio, na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes, uma das áreas extintas na Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade.
Mesmo tendo feito campanha para a família Vieira na cidade, ela não soube dizer por que ficou tão pouco tempo no cargo e alegou receber apenas uma pensão pela morte do filho. Em oposição à fala de Sintilaine, porém, está o fato de que a mesma recebeu, em abril, além dos R$ 494 de pensão, R$ 9,2 mil pela Seas.
Em nota, os irmãos Léo e Luciano Vieira negaram terem indicado pessoas a cargos no governo do estado.
‘Blogueirinha de São Marcos’ também estava lotada na Seas
Bruna Castello Branco Costa Motta, conhecida como a “blogueirinha de São Marcos”, possui cerca de 16 mil seguidores no Instagram e também estava lotada na Seas entre janeiro de 2025 e maio de 2026. Ela foi uma das exoneradas sob a classificação de “alta criticidade”, mas ainda aparece em fotos com políticos em eventos religiosos, como o vereador Diego Faro (PL), o deputado estadual Fred Pacheco (PL) e o irmão Marcio Pacheco, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Os irmãos negaram que a indicaram ao cargo.
A nomeação de Bruna foi levada à Casa Civil, em dezembro de 2024, e publicada no Diário Oficial menos de um mês depois, quando a mesma tinha 25 anos e assumiu o cargo de adjunto I. A Coordenadoria de Pessoal da Seas certificou que ela acumulou 41 dias de férias entre 2025 e 2026, no valor de R$ 9.657,78.
Exonerados não poderão retornar ao órgão de origem
Até o momento, 60 dos 77 órgãos passaram pela auditoria geral nas três últimas semanas. A previsão é que essas pastas já auditadas gerem uma economia de R$ 355 milhões em um ano, incluindo décimo terceiro e férias.
Cada órgão já recebeu relatório individualizado com as inconsistências identificadas, e os secretários da Casa Civil, Flávio Willeman, e de Governo, Roberto Leão, fixaram prazo para que os gestores apresentem suas listas de fantasmas e promovam as demissões.
Os exonerados entram numa lista especial e não poderão retornar ao órgão de origem. Entre as secretarias com maior redução de comissionados estão Trabalho (78,6%), Esporte e Lazer (75,6%), Turismo (73,3%) e Cultura, Tecnologia e Inovação (65,6%).
Com informações do “Jornal O Globo”.
