Candidato à reeleição, o ex-deputado estadual Márcio Canella (União) é o novo alvo de uma Ação de Impugnação de Registro de Candidatura apresentada ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ). Porém, desta vez, a iniciativa não partiu do Ministério Público, mas de outro candidato: Thiago Virgilio (Republicanos), que também disputa uma vaga na Assembleia Legislativa.
Na ação, o autor relaciona Canella a episódios envolvendo suposta interlocução com traficantes e relações políticas com integrantes da milícia local. O documento também destaca, claro, a prisão do ex-prefeito na 6ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal em julho.
Para o candidato Thiago Virgilio, esse conjunto de episódios, somado a outros elementos reunidos na ação, deve ser analisado pela Justiça Eleitoral para verificar uma possível interferência indireta de organizações criminosas no processo eleitoral.
Perguntado, Márcio Canella afirmou estar tranquilo e confiar na Justiça. “Tenho certeza que essa ação foi patrocinada pelo ex-prefeito ficha-suja Waguinho, que ainda não se conformou com a derrota no passado e está com medo de me enfrentar nas urnas”, disse. “Ele é o famoso ‘Dick Vigarista’”, completou.
Ação cita prisão de Márcio Canella na Operação Unha e Carne
O principal fato envolvendo diretamente Canella na ação é a 6ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal em 7 de julho. Após um fuzil ser encontrado em um veículo utilizado por ele, o ex-prefeito foi preso e continuou detido por três dias. Em 10 de julho, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizou a soltura de Canella, que passou a cumprir uma série de medidas cautelares — entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
A ação de impugnação afirma que o episódio deve ser considerado entre os fatos que compõem o contexto apresentado ao TRE-RJ. Como parte dos autos da investigação está sob sigilo, o autor ressalta que não pretende atribuir a Márcio Canella informações que não tenham sido tornadas públicas e se limita aos elementos divulgados oficialmente ou pela imprensa.
Barricada Zero em Belford Roxo e suposta negociação com traficantes
Outro ponto citado na ação é o “Barricada Zero”, programa criado pela Prefeitura de Belford Roxo para retirar barricadas instaladas em áreas dominadas pelo tráfico. A iniciativa municipal começou durante a gestão de Canella e até serviu de inspiração para o ex-governador Cláudio Castro (PL), que ampliou a estratégia para outras regiões do estado.
Porém, a petição pela impugnação da candidatura de Márcio Canella sustenta que, enquanto a iniciativa era apresentada como uma ação de enfrentamento ao crime, uma notícia-crime encaminhada ao Ministério Público (MPRJ) relatava uma suposta negociação com traficantes para viabilizar a entrada do ex-prefeito em determinadas áreas.
Segundo o documento, o capitão da PM Alassander Estrella Rosa teria atuado como interlocutor de Canella com traficantes conhecidos como Soró e Doca. A ação reproduz um diálogo no qual, segundo a notícia-crime, seriam discutidas as condições para que o então prefeito entrasse em determinada área, realizasse obras e gravasse vídeos. Os criminosos, de acordo com a narrativa apresentada, deixariam temporariamente o local e retornariam depois.
A ação ressalta que a notícia-crime apresentada ao MPRJ não constitui prova judicial dos fatos narrados e que as informações ainda estão sujeitas à apuração.
Ex-secretários de Canella também entram na ação
Depois dos episódios envolvendo diretamente Canella, a ação passa a tratar das relações políticas do deputado com pessoas que fizeram parte de seu grupo político em Belford Roxo. Dois nomes citados no documento tiveram os registros de candidatura a vereador do município indeferidos pela Justiça Eleitoral nas eleições de 2024: Fábio Augusto de Oliveira Brasil, conhecido como Fabinho Varandão, e Luiz Eduardo Santos de Araújo, o Eduardo Araújo.
Os processos eleitorais analisaram, entre outros pontos, elementos relacionados à atuação de milícias. No caso de Fabinho Varandão, o registro chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que manteve o entendimento da Justiça Eleitoral sobre a candidatura. Eduardo Araújo também teve o registro indeferido e o caso foi analisado pelo TSE.
Após assumir a Prefeitura de Belford Roxo, em janeiro de 2025, Canella nomeou os dois para cargos de primeiro escalão. Fabinho Varandão passou a comandar a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, enquanto Eduardo Araújo assumiu a Secretaria Municipal de Indústria e Comércio. As nomeações foram publicadas no Diário Oficial do município em 2 de janeiro de 2025.
