
A pista ficou salgada para a criançada que esperava receber doces de políticos cariocas em campanha no Dia de São Cosme e São Damião no último domingo (27), às vésperas das eleições. Pelo menos nas redes sociais não houve movimentação de candidatos mostrando sua devoção aos santos e fazendo um agrado às crianças. Isso se dá num contexto em que religiões neopentecostais fazem críticas duras a tradições afro-brasileiras, caso da celebração dos santos, resultado do sincretismo entre as crenças de matriz africana e a Igreja Católica. O eleitorado evangélico representa mais de 30% da população fluminense, segundo levantamento da Mar Asset Management.
Tarcísio mostrou o saquinho ‘perfeito’ de doces
As exceções que fizeram referência à data (mas não apareceram distribuindo doces) foram nomes como o deputado estadual (atualmente na suplência) Átila Nunes (PSD), candidato a novo mandato, Tarcísio Motta (PSOL) e Marcos Braz (PSDB), que disputam a reeleição para o cargo de deputado federal. O professor, aliás, fez um vídeo divertido montando o saquinho “perfeito” de Cosme e Damião.
“Tem que ter doce de abóbora, quebra-queixo, dinheiro para a educação, professor com tempo de planejamento”, enumerou Tarcísio.
Átila Nunes postou vídeo educativo sobre os santos
Átila Nunes tem forte ligação com as religiões de matriz africana. Em 2017, ele foi autor de projeto na Assembleia Legislativa do Rio que buscava reconhecer os festejos de São Cosme e São Damião como patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Em 2025, o político apresentou projeto relacionado ao reconhecimento do Cantinho de Cosme e Damião como patrimônio religioso, social e cultural imaterial do Estado.
Para marcar a data neste domingo, Átila postou um vídeo educativo mostrando a importância do Dia de São Cosme e São Damião e dando informações sobre a origem da festa. Segundo a tradição católica, os santos viveram no século 3 (DC) e atuavam como médicos na região da Ásia Menor, ajudando os doentes sem cobrar nada. Morreram martirizados por volta do ano 303. Já a crença afro-brasileira associa os santos aos Ibejis e aos Erês, divindades infantis. Átila também postou um ritual homenageando os Ibejis.

Marcos Braz também postou homenagem e pedido de tolerância e respeito às crenças.
“Que este dia seja marcado por fé, carinho, união e respeito às nossas tradições. Um domingo abençoado para todas as famílias do Rio de Janeiro!”, escreveu ele, ao lado de uma imagem do tradicional saquinho de doces com as figuras dos santos.
Vídeo de intolerância religiosa circula no zap
A exploração da intolerância religiosa usada eleitoralmente pode ser notada em casos como um vídeo que circula no WhatsApp, em que o candidato a governador Eduardo Paes (PSD) é apontado como o candidato que frequenta a umbanda enquanto o adversário que está em segundo lugar nas pesquisas, Douglas Ruas, é apresentado como um homem ligado à religião cristã.
‘É o espírito da época’, avalia doutor em Teologia
Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), o professor Fábio Py diz não ter dúvidas de que a intolerância religiosa afasta os políticos do Dia de São Cosme e São Damião.
“Os santos são muito ligados à umbanda e ao candomblé. A gente vê o cristianismo cada vez mais fundamentalista. É um momento muito complicado. É arriscado, nesse contexto, quer se apoie algo ligada às religiões afro, ainda mais a uma semana da eleição. Infelizmente isso está acontecendo. É o espírito da época”, pontua o professor o professor, autor do livro “Pandemia cristofacista” (Recriar, 2020).

Dia do nascimento do ‘Homem da Capa Preta’
A data que festeja os santos e a política do Rio de Janeiro, mais especificamente a da Baixada Fluminense, também guarda uma curiosidade. Foi o dia do nascimento de Tenório Cavalcanti, o temido e famoso “Homem da Capa Preta”, figura mítica de Duque de Caxias. Ele costumava celebrar a data distribuindo doces em sua casa, conhecida como “A Fortaleza”. Eram grandes festas, que reuniam, além da criançada, políticos e até jogadores de futebol, como o craque Garrincha, que também era da Baixada Fluminense.
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