Inaugurado no início do século XX, o Cine Íris, na Rua da Carioca, Centro do Rio, atravessou mais de um século de transformações urbanas, mudanças de público e diferentes fases da indústria cinematográfica. Agora, o cinema mais antigo ainda em funcionamento no Rio se prepara para uma nova fase; conhecido pela programação com filmes pornô, o Íris também vai receber visitas guiadas para quem quiser conhecer o prédio.
Em setembro deste ano, a rua em que o cinema está recebeu o “título” de Rua da Cerveja, abrigando o primeiro Polo Cervejeiro do Rio, resultado do projeto Reviver Centro da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico.
Na esteira dessa mudança, que promete levar mais movimento para a Rua da Carioca, o Cine Íris vai passar a oferecer as visitas com valor colaborativo, iniciativa que permite ao público conhecer a história e os detalhes arquitetônicos de um dos cinemas de rua mais antigos do país.
Para Mica Siqueira, graduando em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e integrante do IMAGHU, Laboratório de Imagem e História Urbana vinculado à universidade, a abertura do espaço ao público é uma oportunidade de aproximar os visitantes de um patrimônio que corre o risco de ter sua história esquecida.
“Seria ótimo passar por uma revitalização de alguma forma, porque ainda tem muito potencial lá dentro, ainda tem muita coisa histórica”, afirma.
Cinema funciona desde 1909

A história do Cine Íris começa em 1909, durante a chamada “belle époque” carioca. O período foi marcado por reformas urbanas e pelo esforço de aproximar a então capital federal dos padrões de modernidade europeus. O espaço foi inaugurado em outubro daquele ano com o nome de “Cinematographo Soberano”, uma homenagem a um cavalo de corrida do fundador, e capacidade inicial para 200 espectadores.
O surgimento da sala ocorreu em meio à expansão das exibições cinematográficas no Rio — entre 1907 e 1911, mais de cem salas foram abertas na cidade. Na época, os cinemas eram vistos não apenas como espaços de entretenimento, mas também como ambientes capazes de contribuir para a educação da população e difundir referências de refinamento e cultura.
Localizado entre o Largo da Carioca e a Praça Tiradentes, o Íris nasceu em uma região que concentrava atividades comerciais e culturais, com cafés, livrarias, teatros e outros pontos de encontro. A arquitetura ornamentada do prédio acompanhava esse contexto, em que os cinemas começavam a ocupar lugar de destaque na vida urbana.
O edifício preserva elementos característicos do estilo art nouveau, como detalhes ornamentais e vitrais. No interior, os espelhos belgas e as pinturas decorativas remetem à proposta original de oferecer uma experiência luxuosa aos espectadores.
Do cinema ao teatro e de volta para o cinema — para adultos

Durante a Primeira Guerra Mundial, a interrupção ou redução da produção de filmes prejudicou a programação das salas do cinema. Para continuar funcionando, o estabelecimento passou a receber espetáculos teatrais e adotou o nome Theatro Vitória, com apresentações de companhias nacionais e internacionais.
Entre 1919 e 1921, uma reforma marcou a reinauguração do espaço como Cine-Theatro Íris, marcando um novo período de grande popularidade, com filas na entrada e procura intensa por sessões. A fase de ouro, segundo Siqueira, se estendeu até a década de 1930.
Passado o novo período de alta, o Cine Íris voltou a decair a partir da consolidação da Cinelândia como principal polo cinematográfico do Rio. Mais distante desse circuito, o casarão histórico perdeu espaço entre os frequentadores que buscavam as salas concentradas na região.
Na década de 1960, a programação passou a incluir filmes pornográficos, além de produções de kung fu e faroestes, que estavam em alta. A mudança ajudou a manter o estabelecimento em funcionamento enquanto outras salas tradicionais da cidade fechavam as portas ou tinham seus imóveis destinados a novas atividades.
Ao longo das décadas seguintes, o cinema consolidou sua atuação no segmento adulto, perfil que mantém até hoje. A programação mudou, mas o prédio continuou aberto, preservando uma atividade que desapareceu de muitos dos antigos cinemas de rua do Centro.
Rua da Cerveja pode trazer novo movimento ao Cine Íris
A abertura das visitas ao Íris surgiu em um momento de mudanças na Rua da Carioca, com iniciativas voltadas à retomada do movimento comercial e à criação da chamada Rua da Cerveja.
De olho nesse novo potencial, o espaço passou a ampliar seus serviços para além das sessões de filmes adultos, criando a possibilidade de visitas guiadas, exibição de filmes de época e até a própria venda de cerveja.
Tombado como patrimônio histórico pelo Iphan em 1982, o Cine Íris não pode sofrer alterações estruturais que descaracterizem sua arquitetura original. Por isso, a ideia da família que administra o espaço é focar em sua importância histórica para atrair o público.
Somado ao Íris, o pesquisador Mica Siqueira lembra que a rua reúne edifícios antigos e estabelecimentos tradicionais, que ajudam a contar a história cultural do Centro. Entre eles estava o Zicartola, bar ligado ao sambista Cartola, que funcionou nas proximidades do cinema e teve importância para a música popular brasileira. As lojas de instrumentos musicais também fazem parte dessa identidade.
A possibilidade de entrar no cinema, conhecer sua arquitetura e ouvir as histórias de quem trabalha ali também pode ajudar a preservar uma memória que, segundo o pesquisador, corre o risco de desaparecer se o espaço continuar sendo tratado apenas como um prédio antigo e pouco conhecido.
Mais de cem anos depois de sua inauguração, o Cine Íris segue em funcionamento.
