Abin aponta risco de atuação do crime organizado e interferência externa nas eleições de 2026

Foto Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) incluiu, entre os principais riscos para as eleições de 2026, a possibilidade de interferência externa, o avanço do crime organizado sobre territórios eleitorais e o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial (IA) para desinformação. As conclusões constam no documento “Desafios da Inteligência: Edição 2026”, que reúne avaliações da instituição sobre ameaças diretas e indiretas à segurança nacional no próximo ano.

Segundo o relatório, a combinação entre tecnologias de manipulação digital, articulações transnacionais de grupos extremistas e a crescente radicalização religiosa formam um ambiente favorável à tentativa de deslegitimação do processo eleitoral e das instituições democráticas.

No Rio, domínio de milícias e facções sobre eleitores

Entre os pontos de maior preocupação, a Abin destaca a atuação de organizações criminosas, especialmente milícias e facções do tráfico, em áreas periféricas e de baixa cobertura estatal. De acordo com a agência, esses grupos exercem controle territorial que afeta diretamente o comportamento eleitoral de comunidades inteiras.

No Estado do Rio, esse alerta encontra terreno fértil. Segundo dados do Ministério Público e de estudos do laboratório Fogo Cruzado, milícias já dominam cerca de 25% do território fluminense, enquanto facções ligadas ao tráfico controlam outros 18%. Estima-se que mais de 2,2 milhões de moradores vivem em áreas sob pleno ou parcial domínio armado. Esse controle se expressa por coação de eleitores, financiamento de campanhas, imposição de candidatos e, em situações extremas, eliminação de adversários políticos.

A Abin ressalta que, nessas regiões, o processo eleitoral sofre interferências estruturais, uma vez que a circulação de candidatos, cabos eleitorais e fiscais fica sujeita à autorização de grupos criminosos.

Desinformação e interferência externa

Outro eixo de risco identificado pela Abin envolve a possibilidade de interferência estrangeira no pleito brasileiro, por meio de campanhas sofisticadas de desinformação, ataques cibernéticos ou financiamento oculto de movimentos políticos. A agência afirma que “a possibilidade de interferência externa no processo eleitoral brasileiro é fator de risco que não pode ser subestimado”.

A experiência recente alimenta a preocupação. Desde 2018, o país presencia sucessivas ondas de ataques narrativos ao sistema eleitoral, amplificados por redes sociais e plataformas digitais. Essas campanhas culminaram nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes, episódio que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro a ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar tentativa de ruptura institucional.

Embora o relatório não cite países específicos, integrantes do governo federal identificam risco de influência vinda dos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump tem emitido declarações de apoio a candidatos conservadores na América Latina e condicionado relações diplomáticas a resultados eleitorais.

IA generativa, deepfakes e radicalização religiosa

A Abin aponta ainda que a disseminação de conteúdos falsos tende a se intensificar com o avanço da inteligência artificial generativa. Deepfakes, vídeos hiper-realistas e áudios simulados a baixo custo podem produzir falas inexistentes de candidatos, distorcer discursos e gerar versões manipuladas de eventos, tornando mais difícil o controle público da veracidade da informação.

O relatório também destaca o aumento da radicalização religiosa como vetor de polarização. Segundo dados do IBGE, o número de evangélicos cresce de forma acelerada no país e de maneira ainda mais expressiva no Rio: 43% da população fluminense já se declara evangélica, percentual que, em algumas cidades da Baixada Fluminense, ultrapassa 50%. A Abin afirma que segmentos religiosos têm sido cada vez mais instrumentalizados para fins de mobilização política, o que pode ampliar tensões em um ambiente eleitoral polarizado.

Riscos digitais e ameaças transnacionais

A articulação internacional de movimentos extremistas, que compartilham métodos de manipulação e propaganda em fóruns digitais, também é apontada como fator de preocupação. Para a Abin, essa rede globalizada amplia a capacidade de grupos antidemocráticos de influenciar debates locais e coordenar ações de desestabilização.

Além disso, o relatório menciona desafios tecnológicos emergentes, como a transição para a criptografia pós-quântica, essencial para proteger transações financeiras, comunicações sensíveis e dados públicos, e a possibilidade de ataques cibernéticos autônomos realizados por agentes de IA avançada, capazes de planejar e executar invasões digitais sem intervenção humana. Fonte: Jornal Folha de São Paulo.

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