Acordo do Governo Lula com JBS e Vietnã ameaça 30 mil produtores de tilápia em SC

A piscicultura catarinense enfrenta um momento de tensão sem precedentes. A liberação da importação de tilápia vietnamita pelo governo federal, somada à possível classificação da espécie como “exótica invasora” pelo Ministério do Meio Ambiente, acendeu um alerta vermelho em toda a cadeia produtiva. No sul do estado, onde Armazém, Grão-Pará e Rio Fortuna formam o principal polo produtor, a preocupação é generalizada.




Clique e receba notícias do Jornal Razão em seu WhatsApp: Entrar no grupo

A equipe do Jornal Razão percorreu a região e ouviu trabalhadores, empresários e o secretário de Aquicultura e Pesca de Santa Catarina, Tiago Bolan Frigo. O temor é que decisões tomadas em Brasília coloquem em risco milhares de empregos, a segurança sanitária e a competitividade dos produtores locais.

Secretário Tiago Bolan Frigo reforça que Santa Catarina vai judicializar a importação de tilápia vietnamita para proteger empregos, produtores e a segurança sanitária do setor.

A aproximação Brasil–Vietnã e o alerta que atingiu o setor

Novos acordos comerciais entre Brasil e Vietnã foram firmados recentemente. A imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segurando uma caixa da Navico ao lado do premiê Pham Minh Chinh com uma caixa da Friboi simbolizou o avanço dessa relação.

Dias depois, uma foto oficial divulgada no Vietnã confirmou o envio do primeiro carregamento de tilápia vietnamita para a JBS Brasil em novembro de 2025. No banner da cerimônia aparecia:

“Shipping of the FIRST Vietnam Tilapia to JBS Brazil – November 2025.”

Fontes internacionais apontam que esse contêiner faz parte de um lote maior, de até 32 contêineres, equivalente a cerca de 700 toneladas. A confirmação acendeu o temor: o peixe estrangeiro chega ao Brasil com custo muito menor, podendo gerar dumping e desequilíbrio no mercado interno.

O que diz o governo de Santa Catarina

O secretário Tiago Bolan Frigo afirmou ao Jornal Razão que o governo estadual já iniciou medidas para tentar barrar ou revisar a decisão federal. Ele alerta para riscos econômicos e sanitários.

“Essa questão da importação do Vietnã e da espécie exótica invasora eu já conversei com o governador Jorginho Melo. Eu vou hoje entrar junto à PGE com pedido de judicialização. Eles vão analisar, mas a preocupação dos produtores catarinenses será levada em todas as consequências possíveis pra proteger os empregos e a questão sanitária da piscicultura de Santa Catarina.”

Frigo contextualizou a importância da região sul:

“Estamos na região que é a maior produtora de tilápia de Santa Catarina. Armazém, Grão-Pará e Rio Fortuna são os maiores produtores. Santa Catarina é o quarto maior produtor do Brasil, e isso agora está em risco pela decisão do Ministério do Meio Ambiente.”

Ele reforçou a preocupação sanitária:

“A tilápia do Vietnã estava suspensa pelo risco do Tilapia Lake Virus. Agora, depois da viagem do Lula ao Vietnã e do acordo que envolveu a JBS, estão chegando contêineres novamente. Isso é preocupante porque a tilápia representa 30 mil produtores em Santa Catarina.”

O medo de quem vive da tilápia

O trabalhador Tino, que cuida diariamente da alimentação e manejo dos peixes, traduz o medo de centenas de famílias do sul de SC: a incerteza sobre o futuro da tilápia ameaça o sustento de toda a região.

O trabalhador Tino, responsável pela alimentação e manejo dos peixes, resume o clima de apreensão vivido na região.

“Meu nome é Tino. Trabalho na fazenda e tomo conta dos peixes. Estamos preocupados porque isso é o nosso ganha-pão. Tem muitos colegas que dependem disso. Estamos assustados. Se for verdade, vai ser difícil. Tomara que não seja, por todo mundo.”

A visão da indústria catarinense

Flávio Laules, da Hac Agroindustrial (Norsi Pescados), destaca que o impacto não fica restrito ao produtor rural. Toda a cadeia pode sofrer.

“A cadeia da tilápia envolve insumos, rações, alevinos, equipamentos, indústria, logística e comércio. Se parte da demanda for absorvida por importados, pequenos produtores podem não conseguir competir, levando ao fechamento de unidades e desemprego regional.”

O empresário Flávio Lawless destaca que a chegada da tilápia vietnamita pode desequilibrar toda a cadeia produtiva em SC e colocar pequenos produtores em risco diante dos preços internacionais.

Ele também questiona a identificação da origem do peixe pelo consumidor.

“Como o consumidor vai saber se o produto é do Vietnã ou do Brasil, com toda a procedência e rastreabilidade da cadeia catarinense?”

“É importante monitorar as importações, avaliar práticas comerciais e garantir padrões sanitários e ambientais.”

Riscos sanitários e econômicos reais

A chegada da tilápia vietnamita ao Brasil já não é especulação. É fato. E para o coração da produção catarinense, é um alerta que ninguém está ignorando.

A ciência já registrou perdas severas causadas pelo Tilapia Lake Virus em diversos países. A FAO classifica o vírus como ameaça global. No campo econômico, o custo de produção vietnamita é muito menor, aumentando o risco de dumping e da falência de pequenos e médios produtores.

A piscicultura catarinense enfrenta uma combinação rara de fatores críticos: risco sanitário, risco econômico, risco regulatório, concorrência internacional crescente e instabilidade política.O governo de Santa Catarina promete judicializar a questão. Enquanto isso, trabalhadores, produtores e indústrias vivem a ansiedade do que pode acontecer caso o produto estrangeiro avance sobre o mercado nacional.



NOTÍCIA