Bares tradicionais do Rio ficam de fora do Comida di Buteco: ‘mesmice’

Começou a contagem regressiva para o Comida di Buteco 2025, que, este ano, acontecerá entre 11 de abril e 11 de maio. O evento, em sua décima quinta edição, não acontece somente no Estado do Rio, como também ocupa outras capitais do Brasil. No entanto, com a divulgação dos concorrentes, parte do público carioca questionou a ausência de nomes consagrados na competição.

O Bode Cheiroso, bar tradicional da Tijuca, é dos estabelecimentos que optaram por não compor a lista de concorrentes de 2025. Leonardo Lelê, um dos donos do Bode, disse que apesar do concurso ser uma grande vitrine para os estabelecimentos, existe um desgaste nessa relação. Para o empresário, este ano, faltou motivação e sobrou “mesmice”.

“No passado a gente já não participou. [O concurso] estava caindo na mesmice, sempre com o mesmo formato, os mesmos vencedores. Além de não poder participar de nenhum evento, de não poder fazer nada fora do concurso durante um ano todo”, diz Lelê.

Todos os participantes do concurso precisam, necessariamente, firmar uma exclusividade com os organizadores do Comida Di Buteco. Ou seja, durante o ano, não é possível participar de outros concursos, ou mesmo promover eventos que envolvam a participação de outros bares.

Também por esse motivo, outro nome de peso que decidiu permanecer de fora da competição foi o Bar da Portuguesa, em Ramos. Concorrente desde 2008 — ano em que o concurso, criado em 2000 em Belo Horizonte, chegou ao Rio —, o bar foi desclassificado ainda em 2022. Mesmo podendo retornar este ano, Paulo Gomes, o Paulinho, dono do bar, percebeu que o Comida di Buteco já não era mais tão vantajoso para os negócios.

“A gente ficou até 2022, quando tivemos um jurado que veio ao bar e resolveu dar nota 1 para o nosso petisco, em três quesitos. E tirou a gente do concurso, automaticamente. Aí a gente foi desclassificado para o próximo ano, que seria 2023”, disse Paulinho.

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Concorrente desde 2008 — ano em que o concurso, criado em 2000 em Belo Horizonte, chegou ao Rio —, o bar foi desclassificado em 2022 – Foto: Reprodução/ Instagram

Para além de não concordar com os critérios de avaliação, a possibilidade de participar de outros eventos acabou ganhando essa queda de braço. Mesmo reconhecendo o valor do concurso, Paulinho relembra que “é só um mês”.

“Porque o concurso realmente é muito bom, mas é só um mês. E o evento a gente faz o ano inteiro, o dinheiro pinga o ano inteiro, é melhor do que a gente ganhar uma vez e depois não ganhar mais nada. Hoje nós estamos em várias feiras”, diz.

Tradição do concurso

O Comida di Buteco funciona assim: os votos do público e dos jurados definem as notas e um ranking dos participantes. Os 20% últimos colocados perdem o direito de participar no ano subsequente, igual ao futebol ou escolas de samba. E o público tem todo o mês do concurso, para visitar, comer, votar e ajudar a eleger os melhores butecos do Brasil.

O evento, idealizado por um grupo de amigos que trabalhavam em uma rádio de Belo Horizonte, é anual, tem duração de 30 dias e começa sempre na segunda semana do mês de abril. Somente no ano passado, 143 bares fluminenses concorreram na competição, divididos em três circuitos: Cidade do Rio, Niterói e Baixada Fluminense.

Os bares que participam são selecionados com um ano de antecedência e precisam criar um petisco especial. Público e júri dão nota de 1 a 10 para quatro quesitos: petiscos, higiene, atendimento e temperatura da bebida. O peso do júri e do público é de 50% cada um. Os votos físicos são recolhidos e apurados por um instituto de pesquisas independente.

Pela tradição e estrutura do concurso, Leonardo Lelê não descarta o retorno do Bode Cheiroso em futuras edições do Comida di Buteco. O hiato pode, também, trazer inspiração e fôlego.

“O concurso é muito bom financeiramente. Traz muita gente, é muito bem divulgado, o retorno financeiro é muito bom, inclusive a gente até se arrependeu de ter pedido para sair e até pediu para voltar esse ano, só que já tinham fechado os bares participantes”, confessa.

Para Fernando Breschnik, do Enchendo Linguiça — outro bar tradicional que ficou de fora desta edição — com o aumento do número de participantes, naturalmente, aumentam as regras e a disputa fica mais acirrada. Mas estar de fora do concurso pode ser também abrir espaço para que novos bares possam surfar na oportunidade de projeção que o Comida di Buteco oferece.

“No final das contas o que importa que o festival é uma grande brincadeira, que por um mês o Rio esquece um pouco do graves problemas, principalmente segurança, e vive a alegria e descontração de amigos que organizam caravanas e rodam pela cidade atrás de um bom bar”, afirma.

O que diz o Comida di Buteco

Em nota ao TEMPO REAL, a organização do Comida di Buteco confirmou que o regulamento prevê que os butecos se dediquem com exclusividade às atividades do concurso, que começam desde junho — quando são convidados — até a edição de abril do próximo ano.

“[As atividades] incluem o envio de documentação, criação de receitas, presença em reuniões e atividades que demandam tempo para que possamos entregar uma edição ao público consumidor. Por isso o buteco escolhe participar apenas do Comida di Buteco, para que possa cumprir essas atividades”, diz trecho.

Sobre a ausência de bares tradicionais na edição deste ano, a organização do concurso, até o momento, não se manifestou. O espaço segue aberto.



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