O município de Itajaí ostenta o maior Produto Interno Bruto (PIB) de Santa Catarina — R$ 47,7 bilhões, segundo dados oficiais — e figura entre os principais polos econômicos do país. Com grandes obras em andamento e investimentos públicos expressivos, seria natural esperar que a gestão seguisse padrões rígidos de integridade e transparência. Mas, contrariando esse princípio, a cidade mantém no comando da Secretaria de Obras um servidor já condenado por corrupção.
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Tarcísio Zanelato foi condenado pela Justiça por crimes cometidos enquanto exercia o mesmo cargo que ocupa hoje. A sentença, assinada por um juiz da comarca de Tangará, reconheceu que ele participou de um esquema de fraudes em licitações e recebeu propina para favorecer uma empresa fornecedora de máquinas pesadas. O caso foi desvendado no âmbito da Operação Patrola, conduzida pelo Ministério Público de Santa Catarina.
De acordo com o processo, as licitações foram direcionadas para beneficiar a empresa Mantomac, que tinha exclusividade na venda das marcas Komatsu e Dynapac. Os editais eram moldados para restringir a concorrência, permitindo que apenas a empresa combinada pudesse vencer.
“Os agentes públicos asseguraram que o descritivo que compõe o edital […] fosse basicamente uma reprodução das características da máquina Dynapac, vendida pela Mantomac”, diz a sentença.
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Em troca, agentes públicos recebiam pagamentos em dinheiro. No caso específico de Itajaí, duas licitações foram alvo da denúncia: uma para aquisição de um rolo compactador e outra envolvendo escavadeiras e tratores. Em ambas, segundo a Justiça, houve manipulação dos editais e superfaturamento nos valores contratados.
Ainda conforme a decisão, Tarcísio solicitou e recebeu propina em duas ocasiões: R$ 15 mil na primeira licitação, e R$ 70 mil na segunda — tudo pago em espécie, em local previamente combinado, “próximo a um posto de combustíveis às margens da BR-101”. Os valores, segundo os delatores, eram registrados em planilhas com a codificação “Frete 3”, usada como forma de controle interno da propina pela empresa.
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“O campo denominado ‘FRETE 3’ descrevia os valores pagos a título de propina, e a quantia informada nas respectivas planilhas de venda ao Município demonstra o que foi pago ao agente público”, afirma um trecho da sentença.
Os relatos dos empresários envolvidos foram confirmados em juízo e reforçados por provas documentais apreendidas, como planilhas e registros de vendas. A Justiça considerou que “as máquinas foram vendidas por valor superfaturado, muito acima daquele que a empresa é capaz de vender e costuma praticar no setor privado, causando severo prejuízo aos cofres públicos”.
Apesar da gravidade dos fatos, a Prefeitura de Itajaí não se pronunciou sobre o caso e tampouco anunciou qualquer providência administrativa, como o afastamento do servidor ou a abertura de procedimento interno. A permanência de Tarcísio no cargo tem gerado questionamentos entre servidores e setores da sociedade civil.
“É uma inversão de valores”, disse à reportagem um funcionário público que pediu anonimato. “Enquanto muitos servidores enfrentam processos administrativos por infrações muito menores, alguém condenado por corrupção continua mandando em tudo.”
O caso chama atenção não apenas pelo impacto moral, mas também pela responsabilidade do cargo que ele ocupa. Como secretário de Obras, Tarcísio tem poder direto sobre contratos milionários, planejamento urbano, execução de projetos e decisões que afetam diretamente a vida de milhares de pessoas.
As duas sentenças pelas quais foi condenado descrevem um esquema bem articulado, no qual máquinas eram vendidas ao poder público por valores acima do mercado, com o acréscimo do pagamento de propina como prática rotineira.
“Os denunciados frustraram o caráter competitivo do procedimento licitatório com o intuito de obterem vantagens […] beneficiando os sócios da empresa, o gerente, o vendedor, e o agente público Tarcísio, que recebeu a quantia de R$ 70.000,00”, afirma a decisão judicial.
Mesmo diante da condenação, a administração municipal de Itajaí optou pelo silêncio. E enquanto isso, o maior PIB de Santa Catarina continua investindo pesado em obras públicas — com um secretário condenado por corrupção no comando.
