Na noite desta segunda-feira, 14 de julho, os salões da Casa da Agronômica testemunharam um encontro que transcendeu as formalidades protocolares. O prefeito licenciado de Tijucas, Maickon Sgrott (PP), sentou-se à mesa do governador Jorginho Mello (PL) com uma pauta única e obstinada: “Tijucas, Tijucas, Tijucas”, como ele próprio fez questão de repetir.
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A fotografia oficial do encontro revelou uma ironia quase poética. Jorginho, às vésperas de seus 69 anos, exibia o braço engessado ao lado de Maickon – imagem que não poderia ser mais simbólica para representar o estado atual de Tijucas, uma cidade que o jovem prefeito herdou com os ossos financeiros quebrados e as articulações administrativas comprometidas.
Os números não mentem, nem perdoam. Tijucas arrasta uma arrecadação que envergonha quando comparada a municípios de porte similar. Especialistas em gestão pública são unânimes ao diagnosticar a origem do problema: oito anos de paralisia administrativa, gestores que preferiram o conforto da inércia ao desconforto das decisões necessárias. O populismo de ocasião venceu o planejamento de longo prazo.
O Tribunal de Contas não deixa margem para romantismo. Os alertas se acumulam como prontuários médicos de um paciente terminal: o rombo previdenciário dos servidores municipais sangra milhões, a arrecadação definha, o orçamento é uma peça de ficção. São fraturas expostas que nenhuma maquiagem contábil consegue mais disfarçar.
Maickon escolheu o caminho mais ingrato da política contemporânea: ignorar as pesquisas de opinião e os aplausos fáceis do curto prazo. É uma aposta arriscada num tempo em que governar virou sinônimo de agradar, e administrar se confunde com entreter.
Há uma contradição peculiar em nossa cultura política. Cobramos dos gestores visão estratégica e coragem para o longo prazo, mas quando alguém ousa implementar exatamente isso, nossa impaciência coletiva se manifesta em gritos e protestos. Queremos a cidade consertada, mas sem o incômodo das obras.
A metáfora do vazamento doméstico é precisa. Todos sabemos onde estão as infiltrações em nossas casas, mas preferimos ignorá-las até que o teto desabe. Tijucas viveu décadas fingindo que seus vazamentos estruturais eram apenas goteiras passageiras.
O braço engessado do governador na foto oficial pode ser lido como presságio ou como promessa. Ossos quebrados, quando bem tratados, se fortalecem. Mas é preciso primeiro imobilizar, depois esperar a calcificação, enfrentar a fisioterapia dolorosa. Não há atalhos no processo de cura, seja de membros fraturados ou de cidades falidas.
Se Maickon conseguirá transformar sua obstinação em resultados, apenas o tempo dirá. Por ora, o que se viu na Casa da Agronômica foi um prefeito disposto a repetir o nome de sua cidade como um mantra, buscando no governo estadual os remédios para suas fraturas expostas. E um governador que, com o próprio braço engessado, talvez compreenda melhor do que ninguém que algumas dores são necessárias para a cura definitiva.
