O futuro financeiro dos Correios acende alerta no governo federal, diante da possibilidade de a estatal não conseguir arcar com salários e despesas essenciais até dezembro deste ano. A empresa — que vende produtos e serviços e deveria ser autossuficiente financeiramente — poderá solicitar auxílio financeiro ao Tesouro Nacional. Dessa forma, o contribuinte é que bancaria as despesas básicas da estatal.
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Se o Tesouro precisar socorrer a estatal, aproximadamente R$ 20 bilhões em despesas extras terão de ser incluídos nas contas públicas, forçando o governo a readequar gastos e cortar políticas para respeitar o teto fiscal. Cálculos compartilhados com a equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicam risco de falta de caixa já em outubro.
Os Correios passaram a apresentar prejuízos na gestão de Lula, em 2023. O atual governo inclusive fez uma manobra contábil para atribuir à gestão de Bolsonaro parte do prejuízo acumulado, fazendo com que o balanço de 2022 também apresentasse prejuízo.

Soluções em debate e impasse no governo sobre os Correios
Para evitar a dependência, os Correios indicam que um aporte da União seria a solução. Esse repasse, embora também impacte o limite de gastos do governo, teria valores menores: de até R$ 5 bilhões em estimativas iniciais, ou R$ 8,7 bilhões para cobrir o patrimônio líquido negativo. Até o momento, o Executivo evita admitir a necessidade do aporte.
Em junho, a estatal emitiu seu primeiro sinal de alerta, mas integrantes da área econômica responderam que não havia espaço no Orçamento para socorrer a empresa.
Em nota, os Correios garantiram que o pagamento dos salários e as “ações de contingência nas áreas operacional e administrativa” estão assegurados para manter as operações. “Essas ações estão alinhadas às medidas focadas na redução de despesas, modernização e ampliação da receita, com o objetivo de fortalecer o fluxo de caixa dos Correios”, afirmou a estatal, sem detalhar se recorrerá ao Tesouro Nacional.
O Tesouro explicou que pedidos de capitalização devem ser feitos pelas empresas estatais ao respectivo ministério supervisor — no caso, o Ministério das Comunicações. Por sua vez, a pasta afirmou que os Correios “possuem autonomia administrativa e financeira para gerir suas operações e recursos” e que seu papel é apenas de “supervisão institucional”, conforme revelou o jornal Folha de S.Paulo. Não houve comentários sobre a situação fiscal.
Durante entrevista a jornalistas na semana passada, o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, declarou não prever um aporte na estatal. “A gente precisa ter outra alternativa, em comum acordo com os demais entes do governo”, disse o ministro. O Ministério da Gestão e Inovação e a Casa Civil não se manifestaram sobre o tema.
Resultados negativos e disputa política
No primeiro semestre de 2025, os Correios anotaram prejuízo de R$ 4 bilhões, quase três vezes maior que o resultado negativo de R$ 1,3 bilhão no mesmo período de 2024. Somente no segundo trimestre, o saldo ficou negativo em R$ 2,6 bilhões, valor quase cinco vezes superior ao prejuízo do mesmo trimestre do ano anterior, de R$ 553 milhões.
O resultado desfavorável decorre, em parte, dos pagamentos de sentenças judiciais e do acordo para sanar o déficit do Postalis, fundo de pensão dos funcionários. A crise foi um dos motivos para o pedido de demissão do presidente da estatal, Fabiano Silva dos Santos, formalizado em 4 de julho. Apesar disso, a saída não foi oficializada, pois o governo ainda não definiu um sucessor.
O cargo desperta interesse de diferentes grupos políticos como União Brasil e PT, mesmo com os desafios financeiros da estatal. Há quem avalie que a escolha do novo presidente só ocorrerá se houver garantia de socorro financeiro por parte do governo federal.
Pressão financeira e busca por alternativas
Atualmente, a estatal enfrenta atrasos no pagamento a fornecedores, com passivo estimado em R$ 600 milhões. O atraso deliberado dos pagamentos é uma forma de preservar caixa, mas a medida já se aproxima do limite. Também há pressão interna por reajustes salariais, mas a direção afirma não ter condições de conceder aumento e tenta evitar uma greve.
A empresa também busca um financiamento externo de R$ 4 bilhões junto ao NDB (Novo Banco de Desenvolvimento), conhecido como Banco do Brics, para um programa de modernização em cinco anos. Contudo, a operação depende de aval da União, o que exige comprovação de capacidade de pagamento, algo improvável no momento. Se as negociações fracassarem, pode ser inevitável um novo pedido de aporte ao Tesouro.
Leia também: “O PT quebrou os Correios”, reportagem de Carlo Cauti publicada na Edição 276 da Revista Oeste
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