Cronologia da Bagunça: a política do Rio e o teatro do absurdo

Respectivamente, Washington Reis e Cláudio Castro

A política do Rio de Janeiro conseguiu um feito digno de estudo clínico: transformar cientista político em Napoleão de hospício — inclusive este colunista que aqui escreve. É preciso mapa, bússola, tarô e talvez uma pitada de ansiolítico para entender os últimos capítulos da novela palaciana fluminense.

Tudo começou quando Washington Reis (MDB), ex-prefeito de Duque de Caxias e então secretário de Transportes de Cláudio Castro PL_, decidiu que queria ser governador. Uma ousadia que despertou reações imediatas na Alerj. Em sessão plenária, os deputados aprovaram sua convocação, e o barraco foi armado: Rosenverg Reis (MDB), irmão de Washington, chamou o presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União), de “xerife do estado”. Bacellar não deixou barato e devolveu com gosto: disse que não aceitava ataque pessoal — e que, diferente do que pensam, não era Cláudio Castro.

Enquanto isso, o próprio governador Cláudio Castro estava confortavelmente fora do país, participando do Gilmarpalooza — evento com nome de festival, mas recheado de ministros do STF e bastidores do poder. Com a caneta na mão, Bacellar aproveitou a interinidade para exonerar Washington Reis da Secretaria de Transportes. Um gesto simbólico, quase coreográfico, para provar que realmente não era Cláudio Castro… mas também não era bobo.

Washington reagiu dizendo que a assinatura de Bacellar não valia nada e que tudo seria revertido quando o verdadeiro chefe voltasse. Só que Cláudio Castro voltou… e não voltou com Washington para a Secretaria.

Entra em cena Flávio Bolsonaro, tentando mediar a crise nos bastidores. Conversou com Castro, que prometeu trazer Washington de volta. Prometeu. Mas ficou por isso mesmo: a palavra empenhada sumiu junto com a nomeação.

Cansado da espera, Washington Reis pegou o microfone e se lançou pré-candidato ao governo. Foi o suficiente para Jair Bolsonaro (PL) puxar o freio de mão no seu grupo político: avisou que não apoia Bacellar ao governo, nem Cláudio Castro ao Senado. E lançou o deputado federal Sóstenes Cavalcanti (PL) como seu nome ao Senado, criando oficialmente o motim na base bolsonarista.

A lógica de Washington Reis agora parece seguir a cartilha de Maquiavel com fidelidade quase religiosa: se não posso governar, que ao menos o inimigo não reine. A movimentação recente aponta para um novo objetivo — impedir que Bacellar chegue ao governo, não por vaidade, mas por estratégia. Afinal, manter o domínio sobre Duque de Caxias — segundo maior colégio eleitoral do estado — é mais importante, neste momento, do que ocupar o Palácio Guanabara. É o reino dos Reis que está em jogo. E, na guerra pelo poder, evitar a ascensão de um adversário pode ser o maior gesto de autodefesa política.

E, enquanto isso, do outro lado da Baía, Eduardo Paes (PSD) — prefeito do Rio e pré-candidato a governador — assiste a tudo de camarote, caipirinha na mão e sorriso no rosto. A disputa do lado de lá virou um Big Brother sem prêmio final: só paredão. E no Guanabara, Cláudio Castro pode decidir não ser candidato a nada.

No tabuleiro fluminense, ninguém joga xadrez. É cada um movendo peça com raiva e jogando o tabuleiro pro alto quando perde. Washington Reis sobe no palanque, Bacellar derruba da cadeira, Cláudio Castro some na conveniência, e Bolsonaro joga gasolina no fogo. Se essa eleição fosse uma pelada em Bangu, já tinha acabado em briga generalizada e camburão.

A política do Rio já foi escola de samba, hoje é bloco de enredo confuso, batendo cabeça e errando a entrada na avenida. Quem entende o que está acontecendo, mente. Quem finge que entende, tá na chapa majoritária.

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