Emanuel Alencar: Recados da condenação gospista e a maratona contra o extremismo

Bolsonaristas sobem no Congresso Nacional, em Brasília (Foto: Afonso Ferreira/TV Globo)

Em brilhante exposição ao podcast “O Assunto”, da jornalista Natuza Nery, o filósofo e cientista social Marcos Nobre fez uma lembrança aterradora, dura, mas necessária: a luta da democracia contra o extremismo é uma corrida de longo percurso, e vai exigir paciência, perseverança e muita tática. Diante da tentativa de se promover, via Congresso Nacional, uma vergonhosa anistia a quem atentou contra o Estado democrático de Direito, o professor titular de filosofia política da Unicamp lembrou que a condenação de Jair Bolsonaro e mais sete golpistas – todos de instutuições militares – terá o condão de aglutinar mais forças aos extremistas de direita. Nada novo no front, Nobre sulinha, já que a ascensão antidemocrática é um dado mundial.

O governo Lula, um governo de minoria no parlamento, precisa estar atento aos movimentos eleitorais de 2026. O cenário é duro: enquanto bolsonaristas planejam há tempos um domínio absoluto do Senado, os setores do centro-esquerda e franjas da direita que se nega a apoiar golpes parecem ainda desarticulados na defesa de nomes competitivos. Para abocanhar a maioria da “Casa Revisora” e tentar impechments de membros do Supremo Tribunal Federal (STF), os extremistas precisam chegar aos 41 senadores. Para isso, a extrema direita terá de vencer 27 das 54 cadeiras disponíveis em 2026. Como vai tentar a reeleição em 11 delas, precisará conquistar 16 que ainda não tem.

Neste contexto, o Rio precisa dar recados claros, ao eleger ao menos um senador alinhado à esquerda. Essa é a tarefa imadiata, mas insuficiente para garantir que não teremos mais uma tentativa de golpe de Estado, gerida com a ocupação de postos ocupados com o voto popular. A tática extremista vai além dos gritos de ordem, como os de Bolsonaro duante os quatro anos de Executivo, e agressões perenes aos sistemas de freios e contrapesos da democracia. A Hungria oferece vasto material sobre os desafios vindouros: a partir de 2010, Viktor Orbán usou as regras e instituições democráticas — eleições, reformas constitucionais, leis — para concentrar poder, limitar liberdades e enfraquecer as instituições, transformando a democracia em uma “autocracia eleitoral”.

Lembremos que, em fevereiro de 2022, em uma declaração à imprensa, Bolsonaro chamou Orbán de irmão e destacou as afinidades políticas e ideológicas entre os dois. “Comungamos também da defesa da família com muita ênfase. Uma família bem estruturada ela faz com que a sua respectiva sociedade seja sadia. Não devemos perder esse foco”, afirmou.

O ex-presidente, agora condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por uma miríade de crimes contra a democracia, contava com uma Justiça morosa, temerosa, letárgica. Felizmente, o Brasil foi mais atento do que os Estados Unidos, que minimizaram a ameaça Trump. As atrocidades incentivadas e planejadas pelo megaempresário extremista não foram punidas. A eleição de Lula, em 2022, por diferença mínima, fez a democracia brasileira respirar. Mas não está tudo bem. Os extremistas e neofascistas são muito fortes.

Comemorar as condenações de quem fere nossos direitos básicos? Sempre. Mas que estejamos preparados para a longa jornada. Vamos prevalecer.


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