

Andando pelas ruas do Centro pouco antes do Natal – um velho hábito que herdei dos meus pais – me deparei com uma imagem curiosa na Rua da Constituição: ao lado da sede da subprefeitura do Centro, uma faixa chamava a atenção dos passantes com os dizeres “Pelo direito à moradia popular e digna. Nenhum direito a menos”. A faixa não parecia obedecer a nenhum código de posturas – e provavelmente quem lá a colocou também não se preocupava com isso, afinal, sequer atentou para o fato de que ao lado estava um órgão supostamente fiscalizatório. Depois me lembrei da notícia divulgada pelo DIÁRIO DO RIO dando conta de que a Prefeitura removeu os cartazes de crianças assassinadas por balas perdidas de uma intervenção urbana na Lagoa Rodrigo de Freitas e fiquei pensando: por que é permitido difundir ideias de entidades nitidamente invasoras de prédios e terras e não se pode homenagear a memória de vítimas da violência? O que define as posturas municipais neste caso?
Bom, continuei passeando pelo Centro, e conversando com comerciantes. Nos arredores da Cruz Vermelha muitos reclamavam de um centro de triagem da população de rua que acabou sendo um centro de atratividade – para lá vão mendigos, dependentes químicos e praticantes de crimes de menor potencial ofensivo. E claro, vai junto a degradação da área. Quem implantou o centro de triagem? A subprefeitura! Durante o dia são entregues quentinhas a dezenas de mendigos, que fazem fila, gritam e brigam. Claro: “nenhum direito a menos”.
Mais dois quilômetros e descubro que foi feita a mesma coisa no Largo da Carioca. E os poucos comerciantes que ainda estão por ali estão preocupados. Não há política pública de acolhimento de moradores de rua, não há projeto para tirar essas pessoas das ruas e permitir o desenvolvimento econômico e a geração de empregos. “Só vemos projeto para trazer a Madonna e a Lady Gaga”, brinca, embora com um tom de tristeza, um balconista de uma loja de música.
E aí lembro de novo do “nenhum direito a menos”. Os direitos a menos existem: os comerciantes têm menos direito a uma rua civilizada. Os moradores têm menos direito a ter segurança e sossego. Os turistas têm menos direito a um Rio de Janeiro mais acolhedor – é constrangedor ver que a política da Prefeitura é simplesmente a liberdade do abandono. Os moradores da Lapa, por exemplo, parecem ter um direito a menos: o do silêncio, uma vez que reclamam diuturnamente dos excessos das boates do bairro sem que sejam minimamente atendidos.
E não estamos falando só do Centro, que hoje é o paciente que parece mais longe de sair da UTI. Vá ao Flamengo, Catete, Largo do Machado, Botafogo, Rua Lauro Muller, Praia Vermelha, Urca, Copacabana e Humaitá e veja de perto, você, cidadão, o que acontece na cidade enquanto o prefeito anuncia show de Lady Gaga e brinca de Big Brother Brasil com os novos soldadinhos do Lula.
O mais alarmante é pensar que há alguns anos o prefeito Eduardo Paes, como deputado federal, era dos mais atuantes investigadores do Mensalão do PT. Que chegou até a atacar a falecida dona Marisa. Que cansou de atacar o PT pessoalmente, até que um dia por conveniência abrigou um vice-prefeito do partido – que logo foi descartado por um outro assim que se tornou mais conveniente. E agora assumirá o novo mandato tendo como vice um jovem que talvez daqui a dois anos assuma a Prefeitura com 30 anos.
Resta saber se ainda haverá Prefeitura – ou se esta, tal como o comunismo de Paes, é só uma conveniência.

