Estamos num momento histórico em que as bases mais fundamentais do liberalismo ocidental estão sob ataques e dúvidas profundas. É bom pontuar que falo daquele liberalismo mais amplo, fundante, o liberalismo que defende representatividade política, direitos individuais, igualdade de dignidade e a regulação dos Leviatãs — sejam eles primeiros-ministros, juízes, reis ou o Estado como um todo. Há 100 ou 150 anos, políticos mais alinhados a um socialismo moderado ou a um conservadorismo liberal, tendiam a discordar dos modos de aplicação desses princípios liberais, porém nenhum deles chegava a minar seriamente a própria ideia de liberalismo como alma ocidental.
É claro que vieram os extremos: o nazifascismo e o comunismo, e por meio de revoluções e seduções propagandísticas, muitos passaram a duvidar das teses fundacionais do Ocidente. No entanto, de modo geral, esses sempre foram, inevitavelmente, os extremistas, reconhecidos e socialmente expostos como tais. Ainda que o Ocidente tenha se seduzido pelas teses extremas, sabiam que a segurança estava nas teses desse liberalismo ocidental clássico. E quando essa era dos extremos desmoronou, foi para aqueles valores ocidentais liberais que correram os países arrependidos do extremismo ou aqueles que surgiam ante o novo desenho geopolítico mundial.
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Hoje, no entanto, os extremos se rearranjaram, se maquiaram e encontraram brechas sociais e institucionais para transformar os seus extremismos em teses que ganham apreço midiático e acadêmico, tudo sob uma forte e nauseabunda carga retórica. Somos a era que passou a duvidar da genética e de sua aplicação corpórea e psicológica sob uma coerência biológica natural aferível, óbvia. A própria ciência empírica, velha perscrutadora do corpo e dos sexos, foi invadida por filósofos, psicólogos e sociólogos que fazem as vezes de ideólogos, substituindo a observação extensa e as conclusões lógicas pelo subjetivismo desconstrutivista de homens que parecem brincar de lego com a sociedade e com os indivíduos.
Novamente o Estado surge — tal como o bolchevismo e o fascismo pregavam outrora — sob o holograma de motor de promoção de igualdade, justiça e prosperidade, apenas trocando os coturnos comunistas, jaquetas fascistas e quepes nazistas por roupas coloridas, vocabulários supostamente inclusivos e militâncias que pregam a tolerância enquanto promovem o oposto do que dizem. O Estado coletivista ressurgiu ante os nossos olhos, numa constituição amorfa de início, mas agora plenamente assumida como “Estado de bem-estar social”, avalista do marxismo tradicional em vestes novas, adequadas ao discurso contemporâneo.

Não por acaso, o cientista político Patrick J. Deneen, autor do provocador livro Por que o liberalismo fracassou?, sustenta que o liberalismo ruiu diante dos desafios contemporâneos. E não porque tenha deixado de cumprir suas promessas de paz, prosperidade e coesão social por meio da defesa dos direitos individuais, mas justamente pelo contrário: ao buscar realizar seus próprios princípios — como a valorização da autonomia, a descentralização econômica e a centralidade do indivíduo como motor da independência — o liberalismo teria produzido, segundo Deneen, um processo de desenraizamento social e familiar que corroeu sua própria base moral: a coesão orgânica da sociedade e de seus membros. O que falha na análise de Deneen, todavia, é o que falhou em quase todas as análises de seus pares acadêmicos: o liberalismo não é uma promessa, não é uma carta divina que jura salvação social e perfeição metafísica. Até mesmo na realização de suas proezas, o liberalismo pode, sim, acabar recaindo em danos colaterais inesperados.
Todavia, o liberalismo político, entendido como esforço e não como promessa, é antes uma culminância de uma evolução intelectual milenar, que perpassa os textos gregos, os Evangelhos e os tratados teológicos da Igreja Primitiva, os textos estoicos, chegando à disputatio da escolástica medieval, e culminando no renascimento como movimento estético e no iluminismo como movimento filosófico-político. O liberalismo não é uma receita de mundo feliz, uma utopia — ainda que muitos façam isso a partir de um roteiro facilitado e bobinho de suas exemplificações. Ele também não é uma máquina de satisfação social e bem-estar. A política é um constante ajuste de expectativas e conclusões. Afinal, a realidade não é dual, maniqueísta, teleológica.
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O liberalismo, porém, é um dos poucos esforços conjuntos da humanidade, feito a partir de acurada sofisticação filosófica e cultivo das boas tradições sociais, e quando isso é temperado pelo conservadorismo moderno, chega-se à tríade que sustenta a política moderna liberal: razão humana especulativa, experiência prática da política e a certeza da falibilidade moral e ontológica do homem. Unidos, esses três sustentáculos sociais do Ocidente formam a certeza de que a política é a arte do possível, não do perfeito, não das utopias. O liberalismo sensato, o liberalismo com pés conservadores, aceita de bom grado que haja em seus caminhos certas máculas de fracassos, porque ele não pretende ser inerrante e infalível, a ele basta ser melhor que as demais opções, e de fato ele o é.
O liberalismo sobreviveu à Primeira e à Segunda Guerra Mundial e se mostrou o único sistema capaz de garantir certa dignidade mesmo em meio às maiores indignidades que puderam ser imaginadas e realizadas. Não era para a Alemanha Oriental, comunista, que fugiam os dissidentes de ditaduras; era para a Alemanha Ocidental, liberal, capitalista. Não é para Cuba que norte-americanos se arriscam em alto-mar, em botes improvisados feitos de garrafas pets, mas sim os cubanos que fogem da ilha comunista.

O liberalismo prático fracassou mesmo, inúmeras vezes. São homens falhos que o praticam. Mas o liberalismo é o único modelo político-econômico que conseguiu entregar dignidade moral ao maior número de pessoas, aumentar a prosperidade daqueles países que o abarcaram, entregar liberdade prática, jurídica, política e ética àqueles que o praticam. Mesmo em meio a inúmeras desigualdades sociais, não é para o Irã que os refugiados correm; mesmo o capitalismo norte-americano, sendo um sistema “sem coração”, é para lá que os famintos vão, e não para a Nicarágua ou a Venezuela.
Deneen parece não ter entendido o paradoxo político moderno: o liberalismo e a democracia liberal sempre falharão ante os utopistas e os catastrofistas, pois é um sistema humano, e por isso, falho, e falho até mesmo quando acerta, segundo suas expectativas. Mas se o liberal-conservadorismo aceita sua finitude e seu caráter de ajuste do possível, tentando consertar suas ações e corrigir suas esperanças. O progressismo comunista, por outra via, trabalha na base da ilusão ideológica, e quando caem no lamaçal do fiasco político, prático, em vez de buscar uma saída de correção de rota, eles reinventam e ressignificam o chiqueiro para mostrar que é melhor ser um porco cuidado pelo Estado num atoleiro do que relativamente livre numa sociedade defeituosa. Obviamente o liberalismo não é um plano de salvação humana, inerrante, mas é a melhor opção política que temos.
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