Polícia prende ex-prefeito por golpe milionário em imobiliárias no Litoral Catarinense

A prisão do ex-prefeito de Ilhota, Daniel Christian Bosi, na manhã desta sexta-feira, escancarou um esquema que, segundo a Polícia Civil, vinha operando de forma organizada e silenciosa no mercado imobiliário, causando prejuízos milionários e deixando um rastro de vítimas em vários estados do país.




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A ação foi conduzida pela Polícia Civil de Navegantes, que cumpriu mandados de prisão preventiva, busca e apreensão, suspensão de atividades econômicas e bloqueio de valores. A investigação é coordenada pelo delegado Osnei Valdir, que aponta indícios de crimes de estelionato e apropriação indébita praticados desde o início de 2025.

De acordo com a apuração, o grupo criminoso criou empresas que se apresentavam como garantidoras de aluguel. Na prática, porém, elas não possuíam autorização da Superintendência de Seguros Privados, a Susep, órgão responsável por regular esse tipo de atividade no Brasil. Em alguns casos, os clientes eram levados a acreditar que estavam contratando um seguro formal e legalizado, o que não correspondia à realidade.

Entre as empresas investigadas estão a Onda Segura, com sede em Navegantes, e a S8 Garante, registrada em um endereço na avenida Brigadeiro Faria Lima, uma das regiões mais valorizadas de São Paulo. A Polícia Civil constatou que, no local informado como sede da S8 Garante, funcionam outras empresas sem qualquer vínculo com os investigados, o que levanta suspeitas de simulação de endereço para transmitir credibilidade ao negócio.

A estratégia do grupo incluía forte presença nas redes sociais, com publicidade agressiva, linguagem profissional e promessas de segurança financeira para imobiliárias e proprietários de imóveis. O objetivo era conquistar rapidamente a confiança do mercado, firmar contratos e ampliar a carteira de clientes em curto espaço de tempo.

Com o passar dos meses, segundo a polícia, surgiam os problemas. As empresas passaram a impor cláusulas consideradas abusivas, atrasar pagamentos e criar obstáculos contratuais que dificultavam o recebimento dos valores devidos. Enquanto isso, os recursos pagos pelas imobiliárias não retornavam na forma prometida de garantia, gerando um efeito em cadeia de prejuízos.

O impacto financeiro foi tão severo que algumas imobiliárias acabaram fechando as portas. Outras, para sobreviver, precisaram repassar suas carteiras de clientes a concorrentes, absorvendo prejuízos que comprometeram anos de trabalho. O esquema, segundo os investigadores, não afetou apenas empresários do setor, mas também proprietários de imóveis e locatários.

Durante o cumprimento dos mandados, a polícia também levantou informações sobre o padrão de vida dos investigados. Eles mantinham uma rotina considerada incompatível com atividades empresariais regulares, vivendo em coberturas de alto padrão de frente para o mar e utilizando veículos importados. Esses elementos reforçam a suspeita de enriquecimento ilícito com recursos desviados das vítimas.

Inicialmente, a investigação se concentrou em vítimas que registraram boletins de ocorrência em Navegantes. Esse levantamento resultou no bloqueio judicial de cerca de R$ 1,5 milhão. No entanto, a Polícia Civil acredita que esse valor represente apenas uma fração do total movimentado pelo grupo.

Há indícios de que o esquema tenha atuado em diversas regiões de Santa Catarina e também nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Mato Grosso. A estimativa preliminar é de que o prejuízo total possa ultrapassar R$ 15 milhões, número que ainda pode crescer conforme novas vítimas procurem as autoridades.

O delegado Osnei Valdir reforça que as investigações seguem em andamento e orienta que todas as pessoas ou empresas que se sintam lesadas procurem a delegacia para registrar boletim de ocorrência. Segundo ele, esse passo é fundamental para dimensionar o alcance real do esquema e responsabilizar todos os envolvidos.

A Polícia Civil também destaca que informações podem ser repassadas de forma anônima pelo telefone 181. O caso segue sob sigilo parcial e novas fases da investigação não estão descartadas, incluindo a identificação de outros possíveis integrantes do grupo e a recuperação de valores desviados.

Em nota, a empresa Onda disse estar adotando as medidas judiciais cabíveis para o devido esclarecimento dos fatos. “A Onda esclarece que não compactua com qualquer conduta criminosa, jamais integrou o denominado Grupo S8 Garante e que não é uma seguradora e sim uma empresa focada em garantia digital, não possui contas com valores exorbitantes bloqueados. Não houve apreensão de veículos pertencentes à Companhia, tampouco bloqueio de suas contas bancárias. A Companhia está colaborando com as investigações relacionadas à antiga gestão e confia que, no curso regular do processo, os fatos serão devidamente apurados e esclarecidos pelas autoridades competentes”.



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