Enquanto Blumenau perde a chance de receber uma Policlínica Regional com investimento de R$ 30 milhões do Governo Federal, a Prefeitura abriu um processo de licitação para gastar até R$ 13.350.000,00 com publicidade institucional até 2026.
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O contraste entre a recusa de uma estrutura de saúde essencial e a destinação milionária para ações publicitárias levanta questionamentos não apenas sobre as prioridades da atual gestão, mas também sobre a legalidade e a transparência do processo.

O caso gerou indignação popular e acendeu alertas em órgãos de controle. Em meio ao impasse sobre a Policlínica, documentos analisados pela reportagem do Jornal Razão revelam a existência de um edital que abre margem para suspeitas de direcionamento, contratação excessiva e possível desequilíbrio orçamentário — especialmente se comparado ao discurso de contenção de gastos propagado pelo próprio prefeito Egídio Ferrari (PL).
O que diz o edital da publicidade milionária
O edital publicado pela Prefeitura de Blumenau prevê a contratação de agências para a prestação de serviços de publicidade institucional. O valor global estimado é de R$ 13.350.000,00, dividido em cotas para campanhas, criação de peças, produção, consultoria e ações de divulgação em rádio, TV, jornal, mídia digital, eventos e redes sociais.
A contratação seria válida por 12 meses, com possibilidade de prorrogação por igual período – ou seja, podendo totalizar quase R$ 27 milhões em 24 meses.
Ainda mais relevante é o contexto: a própria Prefeitura de Blumenau recusou indicar um terreno para a instalação da Policlínica Regional, sob o argumento de que não teria como arcar com os custos de operação, estimados em cerca de R$ 2 milhões mensais.
Contradição: falta para a saúde, sobra para publicidade?
O prefeito alegou em vídeo publicado em suas redes sociais que Blumenau não teria como manter a Policlínica. “Em um ano e meio, a estrutura já consumiria mais recursos do que os R$ 30 milhões previstos para sua construção”, justificou. Por isso, preferiu reativar o Hospital Universitário da FURB, uma estrutura já existente, como alternativa “mais realista”.
O discurso, no entanto, contrasta frontalmente com o investimento previsto na publicidade. Se a conta da Policlínica preocupa, por que a Prefeitura autorizou uma licitação com custo semelhante, destinada exclusivamente à promoção da imagem institucional do governo?
Os R$ 13,3 milhões previstos para publicidade correspondem a cerca de sete meses de manutenção da Policlínica — estrutura que atenderia mais de 800 mil moradores do Vale Europeu com exames, consultas especializadas e pequenas cirurgias.
Enquanto isso, o processo de licitação para contratação de agências de publicidade da Prefeitura de Blumenau, referente à Concorrência nº 001/2025, está marcado por questionamentos que expõem indícios de direcionamento na avaliação técnica.
Conflito de interesses e notas suspeitas
O ponto central está na atuação de um dos avaliadores, Aldo Pasqualini, que desde julho de 2023 ocupa o cargo de diretor de comunicação da Unifique, empresa diretamente ligada a campanhas apresentadas por concorrentes no certame. Mesmo diante desse vínculo, ele participou da subcomissão técnica e atribuiu notas consideradas decisivas para a classificação final.
De acordo com os documentos, uma das agências apresentou justamente peças produzidas para a Unifique, recebendo nota máxima do avaliador ligado à empresa. Outra concorrente manteve a Unifique em sua carteira de clientes e também foi beneficiada. Além disso, uma terceira agência atendia o Espaço Unifique, empreendimento vinculado ao mesmo grupo econômico, mas não declarou essa relação durante o processo.
O caso ganha ainda mais contornos de suspeita quando se observa que a agência vencedora de um dos lotes tinha em sua equipe, até poucos meses antes, um ex-funcionário de longa data que passou a ocupar cargo de destaque dentro da PROEB. Esse órgão foi justamente o responsável pelo financiamento do lote em questão, criando um ambiente de favorecimento indireto, mas altamente comprometedora para a lisura da disputa.

Critérios técnicos ignorados
Essas circunstâncias, somadas, configuram um cenário em que os critérios objetivos do edital foram deixados em segundo plano. O avaliador com conflito de interesses distribuiu notas elevadas a agências com vínculos à empresa em que atua, enquanto propostas mais estruturadas receberam avaliações superficiais e notas inferiores.
Na prática, o que deveria ser um julgamento técnico e imparcial transformou-se em um processo permeado por afinidades pessoais, relações profissionais e potenciais vantagens indevidas, abrindo espaço para contestações sobre a regularidade da licitação.





