Prefeito de SC acusado de integrar organização criminosa diz ‘tirar o chapéu’ para o PT

O domingo de 30 de novembro de 2025, que deveria ser apenas mais uma confraternização política em Forquilhinha, terminou se tornando o estopim de uma crise que já vinha crescendo há meses. O prefeito José Cláudio Gonçalves, o Neguinho, filiado ao PSD, subiu ao palco de um encontro do Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade e declarou publicamente que “tirava o chapéu para o partido”. A frase viralizou imediatamente.




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Mas o gesto político, que gerou comentários e ruídos locais, seria apenas a superfície de uma situação muito maior e muito mais grave.

Em fevereiro desse ano, um aditamento de denúncia do MPSC aponta o prefeito como um dos principais denunciados em um extenso dossiê do Ministério Público de Santa Catarina, resultado da Operação Maktub. A denúncia aponta que Neguinho não só tinha conhecimento, mas liderava um esquema de fraudes em licitações, corrupção e direcionamento de obras públicas, envolvendo servidores de confiança e empresários da região.

A investigação descreve, com riqueza de detalhes, um sistema que teria, em tese, funcionado durante anos dentro da prefeitura.

Acusada recebeu de um servidor da prefeitura uma justificativa “pronta” para aditivo contratual, enviada por WhatsApp. Ela teria lido o conteúdo e criticado a redação, dizendo que “se fosse o Ministério Público, não aceitaria”, o que indica plena consciência da irregularidade 

Segundo o MPSC, Neguinho não apenas estava ciente, mas comandava uma estrutura interna organizada, com setores específicos desempenhando papéis definidos.

Em 2024, Neguinho chegou a ser afastado do cargo. O afastamento ocorreu em 15 de outubro, durante a terceira fase da Operação Maktub. Na ação, foram cumpridos 21 mandados de busca, uma prisão preventiva, uma prisão em flagrante e o bloqueio de R$ 1,7 milhão em bens do prefeito.

Após 28 dias afastado, Neguinho retornou à prefeitura em 12 de novembro, por decisão do TJSC, que acolheu os argumentos da defesa e considerou não haver risco às investigações.

O inquérito

A denúncia descreve um modelo típico de “núcleo político” e “núcleo técnico”.

Núcleo político (segundo a denúncia):

  • José Cláudio Gonçalves, o prefeito
  • Ricardo Ximenes, secretário de Administração e Finanças
  • Assessores diretos

Núcleo técnico:

  • Engenheiros
  • Integrantes da Comissão de Licitação
  • Profissionais de áreas de orçamento, obras e projetos

As funções eram complementares. O núcleo político definiria “o que precisava ser feito”, enquanto o núcleo técnico executaria “como seria feito”.

“A engrenagem só funcionava porque os servidores técnicos atuavam deliberadamente para erguer barreiras, ajustar editais e impedir a competição real. O prefeito detinha pleno conhecimento e anuía a todas as movimentações.”

Durval da Silva Amorim, subprocurador-geral

Procedimentos investigados

  • Concorrência Pública 184/2021
  • Concorrência Pública 91/2023
  • Concorrência Pública 133/2023
  • Concorrência Pública 166/2023
  • Carta Convite 004/2023

Todas relacionadas à construção, cobertura e cercamento do ginásio da Escola Santa Líbera. Os valores ultrapassam sete milhões de reais.

Os investigadores apontam que havia um padrão: primeiro, o edital era elaborado com cláusulas restritivas; depois, engenheiros municipais validavam planilhas que favoreciam uma única empresa; e, por fim, aditivos eram assinados com valores aumentados.

“Os editais eram moldados para excluir concorrentes e assegurar a vitória de empresa previamente escolhida.”

Ministério Público de Santa Catarina

A empresa beneficiada e os lucros apontados

Os relatórios destacam que a empresa Engetom Construção Civil Ltda. foi a principal beneficiada. O empresário Luiz Tomasi, dono da empresa, aparece como peça-chave no esquema. De acordo com o documento, ele recebia informações antes das licitações, ajustava propostas e mantinha diálogo direto com setores internos da prefeitura.

Documentos oficiais da denuncia do MPSC

O MPSC aponta lucros considerados “exorbitantes” pelo empresário em diferentes etapas, incluindo:

  • aditivos na obra principal
  • valores superfaturados de cercamento
  • diferenças entre o contratado e o executado
  • uso indevido de maquinário público para serviços particulares

“Somente no cercamento da obra do ginásio, o empresário obteve lucro indevido superior a R$ 137 mil, resultado da diferença entre o valor empenhado pela prefeitura e o efetivamente gasto.”

Denúncia também expôs perseguição política

Grande parte do avanço investigativo decorre de mensagens extraídas dos celulares dos envolvidos.

Entre os achados, conversas entre servidores e o empresário indicariam:

  • datas combinadas para abrir envelopes
  • troca de versões de planilhas
  • orientações sobre exigências técnicas
  • discussão sobre aditivos antes mesmo do início da obra

“Pode deixar que ajusto o edital do jeito que conversamos.”

“Já está tudo alinhado com o prefeito. Agora é só executar.”

Denúncia também expôs perseguição política

Esses trechos fazem parte das evidências que levaram o MPSC a considerar que a atuação era “estruturada, hierarquizada e reiterada”.

As acusações são graves, o volume de provas é extenso e a repercussão política é inevitável.

O caso se tornou, em poucas horas, um dos episódios mais impactantes da história recente de Forquilhinha. A partir de agora, o futuro do prefeito e de sua equipe dependerá da análise do Judiciário, da profundidade da investigação e das respostas que ainda precisarão ser dadas à sociedade.



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