Prefeitura do Rio amplia oferta de táxis em meio à concorrência com aplicativos

Foto: Reprodução

A Prefeitura do Rio autorizou a distribuição de 2.324 novas autonomias de táxis, após o prefeito Eduardo Paes sancionar, nesta quarta-feira (19), o projeto de lei que redefine a proporção de veículos da categoria na cidade. A regra, proposta pelo líder do governo na Câmara, Márcio Ribeiro (PSD), estabelece que deve haver um táxi para cada 180 habitantes, o que eleva a frota potencial para 34.507 veículos. Antes, o limite era de um para cada 193 moradores, totalizando 32.133 carros.

A mudança ocorre num momento em que o setor de táxis enfrenta queda de demanda e envelhecimento da categoria. Motoristas mais jovens têm migrado para as plataformas digitais, transformando o perfil do serviço na capital.

Taxistas mais velhos nas ruas

Levantamento publicado pelo GLOBO em setembro apontou que, em dez anos, a proporção de taxistas autônomos com 60 anos ou mais saltou de 24,7% para 38,6%. Entre os auxiliares (motoristas que pagam diárias para trabalhar nas autonomias de terceiros) o número mais que dobrou, passando de 9,2% para 24,9%. A pandemia acelerou essa tendência, ao reduzir a demanda por táxis e empurrar profissionais mais jovens para alternativas consideradas mais rentáveis, como os apps.

Especialistas criticam ausência de estudo técnico

Para especialistas em mobilidade, a ampliação da frota deveria ter sido precedida de um diagnóstico detalhado da demanda. Marcelino Vieira, coordenador e professor do Programa de Engenharia de Transportes da COPPE/UFRJ, criticou a mudança:

“Essa questão da oferta de táxis é mal resolvida desde o surgimento dos aplicativos. Uma mudança desse porte deveria vir acompanhada de estudo técnico para evitar que se aprofunde a crise do setor”.

Vieira lembra que, em 2019, estudo realizado para a Câmara do Rio revelou uma disparidade significativa no fluxo de passageiros: os aplicativos transportavam cerca de 750 mil pessoas por dia, enquanto os táxis atendiam pouco mais de 233 mil.

Diferença na frota: apps superam táxis com ampla margem

Embora a prefeitura projete 34,5 mil táxis, o número de motoristas por aplicativo, considerando as principais plataformas, como Uber, 99 e InDriver, é estimado por especialistas do setor e entidades trabalhistas entre 120 mil e 150 mil motoristas ativos na Região Metropolitana. Isso significa que há ao menos três vezes mais carros de aplicativo do que táxis licenciados, um fator decisivo na competição por passageiros.

Tarifa: aplicativos mais baratos que táxis na maior parte das corridas

A diferença de preço também pesa. Simulações recorrentes feitas por entidades de mobilidade e dados divulgados pelas próprias plataformas mostram que, em trajetos urbanos de até 10 km:

  • Corridas por aplicativo costumam custar entre 20% e 40% menos que o táxi comum.
  • Durante horários de pico, quando apps podem aplicar dinâmica, a relação se inverte, mas de forma pontual.
  • No cálculo padrão, a bandeirada do táxi no Rio é atualmente de R$ 6,00, com quilômetro rodado em torno de R$ 3,60 (bandeira 1) e R$ 4,32 (bandeira 2).
  • Nos aplicativos, o valor mínimo costuma variar entre R$ 4,50 e R$ 6,00, com custo por quilômetro frequentemente abaixo de 30 a 50%  do cobrado pelos táxis.

Essa diferença tem contribuído para que grande parte dos passageiros migre para os apps, mesmo em um cenário de aumento de reclamações sobre tempo de espera e segurança.

Prefeitura e vereadores defendem medida

Mesmo com críticas, o autor do projeto, vereador Márcio Ribeiro, argumenta que o objetivo principal é conceder autonomia aos auxiliares, que trabalham há anos pagando diárias aos titulares:

“O foco é dar oportunidade a quem já está nas ruas há muito tempo. A frota em circulação, na prática, deve continuar a mesma”, disse Ribeiro.

Hoje, o Rio conta com cerca de 44 mil taxistas, dos quais 11,8 mil são auxiliares. O número supera a oferta de novas autonomias, o que deve gerar forte demanda quando a prefeitura iniciar a distribuição. O sindicato da categoria foi procurado, mas não se manifestou.

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