
Segundo divulgado por O Globo e Veja Rio, uma contradição salta aos olhos de quem acompanha as ações recentes da Prefeitura do Rio de Janeiro. De um lado, temos o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a União investindo recursos para aproveitar o Campeonato Mundial de Clubes da FIFA, realizado nos Estados Unidos, como uma vitrine para divulgar a imagem do Rio no exterior. Cada um dos três grandes clubes cariocas – Flamengo, Fluminense e Botafogo – recebeu do governo do Estado do Rio de Janeiro R$ 1 milhão para organizar suas “casas” nos EUA, com o objetivo de promover o Estado e, por consequência, a cidade, durante aquele Campeonato Mundial.
Do outro lado, surpreendentemente, a Prefeitura do Rio não seguiu esse mesmo caminho. Apesar de vivermos uma oportunidade histórica — somos a única cidade no mundo com três clubes participando ao mesmo tempo do Mundial de Clubes —, o Executivo municipal simplesmente ignorou essa chance de promover a marca “Rio de Janeiro” em território americano. Nenhum apoio, nenhuma parceria, nenhuma iniciativa.
Mas se a Prefeitura alegadamente não vê interesse público ou prioridade em investir em visibilidade internacional da cidade por meio do futebol — um dos nossos patrimônios culturais mais exportáveis —, por que então considerou importante patrocinar com R$ 450 mil um campeonato de futebol promovido por magistrados do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro?
Sim, conforme publicado no Diário Oficial do Município e destacado por Veja Rio, a Subsecretaria de Esportes autorizou a celebração de contrato de patrocínio com a AMAERJ (Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro) para a realização do Campeonato Nacional de Futebol da AMB/AMAERJ, que acontecerá entre 20 e 24 de agosto, com a presença de juízes de todo o país. Nada contra o campeonato em si — o esporte une e promove saúde. Mas onde estão os critérios de prioridade e interesse público?
Como entender que um campeonato nacional, entre magistrados brasileiros — por mais respeitáveis que sejam —, realizado dentro do próprio território fluminense, receba incentivo da Prefeitura, enquanto uma ação internacional, com repercussão midiática e turística para o Rio, seja solenemente ignorada?
A impressão que fica é de que, para a atual gestão, vale mais agradar o Judiciário local do que investir na imagem internacional da cidade. Afinal, juízes decidem ações que muitas vezes envolvem o interesse direto do Município. Seria esse patrocínio um gesto despretensioso ou um movimento sutil de aproximação estratégica?
É difícil não questionar: qual critério justifica o silêncio da Prefeitura diante do Mundial de Clubes e, ao mesmo tempo, seu entusiasmo com um torneio restrito a juízes?
Fica a reflexão: enquanto o mundo olha para o Rio com curiosidade e expectativa por sermos a cidade dos três clubes no Mundial, nossa Prefeitura preferiu olhar para dentro — e, curiosamente, para dentro do Tribunal de Justiça.
Porque, no fim das contas, talvez a bola que mais interessa a alguns não seja a que corre nos gramados, mas a que quica silenciosa nas salas de audiência judicial.
Ah, alguns chegaram a sugerir que a ausência de patrocínio às casas dos clubes Botafogo, Flamengo e Fluminense nos Estados Unidos teria sido uma retaliação do senhor Prefeito, já que o seu time de coração, o Vasco da Gama, não está participando do Campeonato Mundial de Clubes. Mas, sinceramente, não acredito que o chefe do Executivo municipal — ainda que costume agir como se fosse o imperador do Rio de Janeiro — teria uma atitude tão mesquinha e infantil com o uso dos recursos públicos.
