Rachado no Rio, PSDB tenta se adequar às novas exigências nacionais e ter algum protagonismo em 2026

Após anos de retração, perda de quadros e desempenho eleitoral aquém da relevância que já teve no estado, o PSDB começa a rearticular sua presença no Rio de Janeiro com a meta de voltar a ocupar espaço competitivo em 2026. A sigla trabalha para ampliar bases municipais, atrair parlamentares e redefinir sua identidade num ambiente político fragmentado, disputado por forças consolidadas como o PSD, o PL e o PT, além da permanência da polarização entre direita e esquerda.

Reforço parlamentar e disputa interna por comando

O movimento mais emblemático da reestruturação fluminense ocorreu no último mês, com a filiação do deputado federal Luciano Vieira, em cerimônia em São João de Meriti, seu reduto eleitoral. Com a adesão, o PSDB chega a 15 deputados federais no país, número considerado estratégico pela cúpula tucana para evitar o risco de não cumprir a cláusula de barreira em 2026.

Nos bastidores, Vieira é cotado para assumir a presidência estadual da legenda, hoje enfraquecida após anos de baixa atividade política e perda de capilaridade municipal. Aliados afirmam que sua nomeação abriria caminho para um plano ambicioso: eleger ao menos cinco deputados federais pelo Rio nas próximas eleições, algo muito distante do cenário atual.

A executiva fluminense, porém, ainda enfrenta disputas internas e resquícios de antigas divisões locais. O partido tenta recompor diretórios, reorganizar a militância e retomar diálogo com prefeitos e vereadores que migraram para outras siglas nos últimos anos, sobretudo para PSD, União Brasil e Republicanos.

Os militantes que restaram no partido no Rio afirmam que para viabilizar a estratégia oficializada nesta quinta-feira (28), em convenção do PSDB em Brasília, é melhor manter os atuais dirigentes: Sávio Neves, primo de Aécio, permaneceria na direção estadual, e o novo tucano Marcelo Queiroz, atual secretário de Administração de Eduardo Paes, ocuparia a direção municipal.

Reconfiguração nacional impulsiona reorganização fluminense

A articulação no Rio ocorre em sintonia com o movimento nacional de renovação após oito anos de declínio. Em convenção nacional realizada nesta quinta-feira (27/nov), o deputado federal Aécio Neves (MG) voltou à presidência do PSDB defendendo uma guinada ao centro e distanciamento tanto do bolsonarismo quanto do governo Lula. O discurso nacional, que prega “retomar o protagonismo histórico” e buscar eleitores cansados da polarização, serve como aval para as reestruturações estaduais, especialmente em praças em que o partido quase desapareceu.

Aécio tem afirmado que o PSDB precisa recuperar voz no debate nacional e reconstruir musculatura parlamentar. A sigla, que já esteve entre as mais fortes do país, perdeu governadores, encolheu no Congresso e corre o risco de não atingir a cláusula de desempenho em 2026. A atração de deputados federais, sobretudo na janela partidária, tornou-se prioridade absoluta.

Rio: terreno adverso e domínio de novos atores

Apesar do esforço de reorganização, a conjuntura fluminense é considerada uma das mais difíceis para o PSDB no país. O partido praticamente desapareceu das disputas majoritárias estaduais e municipais nos últimos anos e hoje atua em meio a um cenário fortemente polarizado entre grupos progressistas, alas da direita bolsonarista e o avanço do PSD, partido que controla a prefeitura da capital e trabalha para ampliar sua influência regional.

As pesquisas mais recentes mostram o prefeito Eduardo Paes (PSD) liderando com larga vantagem a corrida pelo governo do estado em 2026, com mais de 50% das intenções de voto em cenários estimulados. A força do PSD, somada ao peso do PL no interior e ao enraizamento do PT na Baixada e na capital, deixa pouco espaço para uma candidatura tucana competitiva.

Além disso, a federação PSDB–Cidadania optou, na última eleição municipal, por apoiar a pré-candidatura do deputado Marcelo Queiroz (PP) à prefeitura do Rio, indicando um vice tucano (a vereadora Tereza Bergher), movimento que evidenciou a dificuldade da sigla em conduzir projetos próprios e mostrou dependência de alianças para se manter relevante. No contexto para 2026, a direção do Cidadania já adiantou que vai desfazer a parceria e os tucanos já estão arrastando asa para uma Podemos para uma nova dupla que consiga superar a cláusula de barreira.

Tentativa de reposicionamento e batalha pela sobrevivência

Para dirigentes fluminenses, o partido tenta agora recuperar nichos eleitorais tradicionais, especialmente entre quadros técnicos, setores de classe média e segmentos que rejeitam tanto o lulismo, quanto o bolsonarismo. A estratégia, porém, enfrenta o desafio de reconstruir credibilidade após anos de esvaziamento. O temor da perda da cláusula de barreira em 2026, o que deixaria o PSDB sem fundo partidário e tempo de TV, é visto internamente como fator de pressão para acelerar filiações e reorganizar diretórios regionais. Em paralelo, a cúpula nacional não descarta apoiar, no futuro, candidaturas de fora da legenda caso isso ajude o partido a sobreviver politicamente.

No Rio, a ordem é se reposicionar, ampliar presença municipal e tentar recuperar o espaço outrora ocupado no centro político fluminense. O desafio, porém, é grande: o tucano tenta voltar a voar alto num estado em que as forças dominantes já ocupam quase toda a pista.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail

NOTÍCIA