Saudades da Ciência de Verdade

Rogério
Foto: CMRJ

Durante o triste período da pandemia de COVID-19, um ministro da Saúde — devidamente defenestrado pelo então presidente Bolsonaro — popularizou entre a esquerda o bordão “ciência, ciência, ciência”. Defendia a autoridade de antanho que toda a histeria e as informações desencontradas sobre o coronavírus eram nada mais do que pura ciência, já com aprovação dos pares e publicação em periódicos.

Na conta da “ciência, ciência, ciência” entraram várias insanidades: pessoas sendo retiradas de praias — ambiente ventilado, sem risco — à força por policiais, assembleias querendo aprovar passaportes vacinais (proibir pessoas não vacinadas de entrar em lugares!), pobres vendedores tendo suas mercadorias confiscadas e outros indo à falência porque se proibia o cidadão até mesmo de frequentar parques abertos. Tudo era “ciência, ciência, ciência”.

Prefeituras por todo o Brasil promoveram lavagens de ruas, como se adiantasse alguma coisa. Restaurantes passaram a adotar o cardápio em QR Code (que pode até ser prático, mas nem todos são obrigados a saber usar), e até mesmo entregas tinham horários restritos em alguns condomínios por aí.

A isto tudo, lembro, deram o nome de ciência. Aqueles que ousavam discordar das medidas draconianas eram rotulados como “negacionistas” ou, como acontece sempre quando a esquerda está com o domínio do discurso, “fascistas”.

O presidente Jair Bolsonaro, durante a pandemia, determinou a compra de todas as vacinas disponíveis e sua distribuição pelo Sistema Único de Saúde. Na ocasião, o prefeito do Rio — já o atual — e o governador de São Paulo ficaram brincando nas redes sociais para ver quem ia aplicar mais a vacina comprada… pelo presidente da República. Nem entrarei no mérito aqui de ter duas pessoas públicas trocando amabilidades sobre vacina em meio a uma pandemia tão grave, e em um cenário no qual qualquer frase de Bolsonaro era utilizada para atacá-lo. Se Bolsonaro trocasse mensagens ridículas no Twitter com alguém sobre a vacina, com certeza haveria até plantão da TV Globo.

Enfim, estas recordações me vêm no momento em que vemos a reação da militância de esquerda a duas medidas simples, civilizatórias e 100% baseadas na… ciência. Mas ciência de verdade, com aprovação de pares, com análise de dados — e não a “ciência, ciência, ciência” dos histéricos de 2020.

A primeira reação que menciono é a da esquerda contra a Lei Municipal 8.836/2025, que simplesmente determina a colocação, em unidades de saúde, de cartazes informando as mulheres sobre o risco que o aborto — mesmo o “legalizado” — acarreta para suas saúdes. O cartaz alerta para o risco de vida, para os danos físicos e também propõe a adoção consciente como alternativa.

Vejam bem: apenas avisa que é perigoso (muitas mulheres não sabem), que é crime e que há uma alternativa diferente de matar o nascituro. Nada mais. Não se trata sequer de questionar os excludentes de ilicitude previstos pela legislação brasileira quanto ao aborto — embora eu sempre faça questão de deixar claro que a mulher vítima deve ser informada das alternativas.

Mas uma jornalista-militante de O Globo escreveu artigo no dia 20 de junho dizendo que “lei que obriga a exibir cartazes antiaborto é barbaridade”.

Vejam bem: pelo que entendi, a jornalista não acha que arrancar um feto em desenvolvimento de dentro do útero de uma mulher seja uma barbaridade. Barbaridade é apenas se alguém conscientizar as mulheres sobre riscos para elas próprias! É uma inversão de valores inimaginável e de viés completamente autoritário — a jornalista-militante entende que toda a sociedade deve adotar os valores dela, e não os religiosos.

Dois dias antes desse artigo, mais “ciência, ciência, ciência”: o Ministério Público Federal entrou com ação contra o Conselho Federal de Medicina (CFM) para cancelar a Resolução 2.427/2025. Para quem ainda não sabe, esta é uma resolução que revisa os critérios éticos e técnicos para o atendimento a pessoas com incongruência e/ou disforia de gênero.

A excelente resolução do CFM apenas proíbe o uso de bloqueadores hormonais em menores, restringe as hormonioterapias aos maiores de 18 anos e adia cirurgias esterilizantes para maiores de 21 anos. Tais medidas foram adotadas no Reino Unido e ainda nos países escandinavos (Suécia, Finlândia e Noruega). O que o CFM fez foi a proteção da infância e da adolescência.

E, incrivelmente, o Ministério Público Federal tenta cancelar as medidas em nome da “ciência, ciência, ciência”, para atender pura e simplesmente a uma agenda ideológica. Não se trata de defender o direito de pais e filhos — trata-se de defender o direito de impor ideologias!

Como diz muito bem o informe da ONG Mátria (Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil), que protestou contra a ação:

“Não há evidência robusta de benefício para saúde mental com bloqueadores e hormonioterapia. Para cirurgias, há menor consistência e mais riscos de arrependimento ainda.”

Ou seja, de um lado temos a verdadeira ciência sustentando a decisão do CFM. Do outro temos apenas lacradores achando que quem não concorda com eles é fascista.

A verdadeira ciência não tem lados, não tem viés. Ela é resultado da experimentação, da observação e do conhecimento. O resto é apenas fanatismo ideológico.

Não podemos permitir que o fanatismo paute a nossa sociedade.

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