

Vinte e quatro horas depois da prisão do presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), o silêncio das principais autoridades do estado passou a falar mais alto do que qualquer nota oficial. Nem o governador Cláudio Castro (PL), antigo aliado do parlamentar, nem o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), se manifestaram diretamente sobre a detenção que chacoalhou o topo do poder político fluminense. As informações são do jornal O Globo.
Na manhã desta quinta-feira, Castro era aguardado às 9h na Sala Cecília Meireles, na Lapa, para o pré-Cosud — encontro que abre a série de reuniões do Consórcio de Integração do Sul e Sudeste, que desta vez também contará com a presença do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. O governador, porém, não apareceu até o fim da manhã.
Enquanto isso, sua única manifestação pública após a prisão de Bacellar foi um vídeo nas redes sociais sobre o combate ao incêndio na Ceasa, sem qualquer menção ao presidente afastado da Assembleia Legislativa.
Do lado da prefeitura, o tom não foi muito diferente. Provável candidato ao governo do estado em 2026, Eduardo Paes também evitou o assunto e não apareceu à coletiva de imprensa no Copacabana Palace, na Zona Sul, em que falaria sobre a organização do réveillon deste ano. Nas redes, preferiu comentar o título brasileiro do Flamengo: “Um saco esse negócio de ser institucional como prefeito do Rio. Mas vamos lá: Parabéns Flamengo pelo título do brasileiro! Em tempo: vamos ao que interessa”, escreveu no X, em tom de brincadeira, sem tocar no tema Bacellar.
Enquanto o mundo político se ajusta ao constrangimento, o processo contra o presidente da Alerj segue seu curso. A prisão de Rodrigo Bacellar foi decretada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Operação Unha e Carne. O deputado foi detido na manhã de quarta-feira na sede da Polícia Federal, no Rio, e a decisão também determinou seu afastamento da presidência da Assembleia.
Na decisão, Moraes afirma haver “fortes indícios” de participação de Bacellar em organização criminosa. A PF aponta o parlamentar como suspeito de vazar informações sigilosas da Operação Zargun, deflagrada em setembro, que prendeu o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, acusado de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção e atuação como uma das lideranças do Comando Vermelho.
A suspeita surgiu após a análise de materiais apreendidos naquela operação. Trocas de mensagens entre Bacellar e TH Jóias foram identificadas como indicativo de vazamento. Segundo a decisão, Bacellar “teve conhecimento prévio da operação policial, comunicou-se com Thiego – principal alvo da ação – e ainda o orientou quanto à retirada de objetos de interesse investigativo”.
Na quarta-feira, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em quatro endereços ligados ao deputado — em Botafogo, Campos dos Goytacazes e Teresópolis —, além do gabinete na Alerj. TH Jóias também foi levado para depor na sede da PF, onde permaneceu por cerca de 1h20, mas optou por ficar em silêncio.
Preso, Bacellar ficará na Superintendência da Polícia Federal no Rio, com direito a sala de Estado-Maior, prerrogativa de autoridades e parlamentares.
Já a Alerj, em nota, informou que ainda não havia sido oficialmente comunicada sobre a operação e que, assim que receber os detalhes, adotará “as medidas cabíveis”. Enquanto isso, o silêncio calculado de Cláudio Castro e Eduardo Paes revela o grau de constrangimento e o impacto político da prisão de um presidente de Assembleia em pleno exercício do mandato, num momento em que Rio e Brasil inteiro voltam os olhos para o tabuleiro eleitoral de 2026.
