‘Temo por uma guerra mundial’

O embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, manifestou preocupação com a escalada da tensão no Oriente Médio depois dos ataques realizados pelos Estados Unidos contra instalações nucleares do Irã.

Em entrevista concedida ao portal UOL neste domingo, 22, Amorim avaliou que o atual cenário internacional representa uma ameaça inédita à paz global. “Eu nunca vi um momento tão tenso como esse”, afirmou.

Ao longo da entrevista, o ex-chanceler fez questão de ressaltar que falava em caráter pessoal. “Estou falando em nome pessoal, do alto dos meus 83 anos”, declarou. “Não estou dando uma declaração em nome do governo brasileiro. Mas estamos vivendo um momento de grande perigo.”

Segundo Amorim, a operação norte-americana comandada por Donald Trump, com alvos em território iraniano, pode ter repercussões diretas sobre outros conflitos, como a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

“Não é só o que ocorreu no Iraque, que foi condenável”, disse, ao rememorar a invasão do Iraque em 2003, sob a presidência de George W. Bush. “Naquele momento, ninguém temia uma guerra mundial. Hoje, eu temo.”

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Embora descarte, por ora, o risco de uma guerra mundial em sua totalidade, Amorim alertou para a possibilidade de um conflito de grandes proporções. “Dificilmente um país que tem uma arma nuclear a use contra outras potências nucleares”, avaliou. “Acho que o grau de loucura não chegou a esse ponto. Mas pode ser uma guerra.”

O diplomata destacou que atualmente há dois focos de conflito relevantes: um na Eurásia e outro no Oriente Médio. “Se as duas guerras se comunicarem, como pode acontecer, já seria praticamente uma guerra mundial”, advertiu.

Além dos conflitos armados, Amorim mencionou a guerra tarifária em curso como elemento de agravamento da instabilidade. “Se somar ao cenário a guerra tarifária, acho que o mundo está correndo o risco de afundar como eu nunca vi”, declarou.

Quando perguntado se o mundo vive hoje uma tensão comparável à da Guerra Fria, Amorim foi enfático. “Nunca vi em minha vida nada parecido em termos de tensão”, disse. Ele comparou o momento atual à crise dos mísseis de Cuba, de 1962, mas considerou que a situação hoje é mais imprevisível.

“Mesmo no momento da crise dos mísseis de Cuba, evidente que tivemos um momento de drama”, disse. “Mas, naquilo, envolvia duas pessoas. Uma de cada lado. Hoje, você não controla. Tem os iranianos, os israelenses, tem aqueles que têm armas químicas. É muito complexo.”

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Um dos pontos centrais de sua análise foi o risco de que a justificativa usada pelos EUA para atacar o Irã — a de ação preventiva — seja adotada por outros países. “Isso é muito perigoso”, afirmou.

Segundo Amorim, a possibilidade de que lideranças em países como a China sigam o mesmo raciocínio pode desencadear reações imprevisíveis. “Um líder na China ou em outro país possa considerar que, também de forma preventiva, poderia agir diante de ameaças para seus interesses.”

Além das consequências militares, Amorim avalia que o episódio representa um abalo na credibilidade de instituições internacionais. “Os atos dos últimos dias estão ameaçando o povo iraniano, a região, o risco de guerra, mas também a credibilidade da ONU e do Tratado de Não Proliferação”, disse.

O ex-chanceler afirmou que o Brasil seguirá comprometido com os acordos internacionais sobre armas nucleares, mas admitiu que o atual cenário poderia ter desestimulado o país caso ainda considerasse aderir ao Tratado. “Mas teria sido mais difícil entrar hoje, depois dessa situação”, pontuou. “Haveria mais dúvidas. Nossas e de outros.”

Na avaliação de Amorim, os ataques podem ter um efeito contrário ao desejado pelos EUA. “O que os americanos estão fazendo é estimular um país a chegar a uma arma nuclear. Nesse caso, o poder de retaliação seria muito grande”, alertou.

Donald Trump, presidente dos EUA, na Casa Branca, em Washington, D.C. (22/5/2025) | Foto: Reuters/Evelyn HocksteinDonald Trump, presidente dos EUA, na Casa Branca, em Washington, D.C. (22/5/2025) | Foto: Reuters/Evelyn Hockstein
Donald Trump, presidente dos EUA, na Casa Branca, em Washington, D.C. (22/5/2025) | Foto: Reuters/Evelyn Hockstein

Ele também relembrou a proposta de acordo mediado pelo Brasil com o Irã, há quinze anos, que poderia ter evitado a atual crise. “Isso tudo poderia ter sido totalmente evitado”, disse. À época, o Brasil participou das negociações para um acordo de troca de urânio, que não foi aceito pelos EUA.

“A ideia era de Barack Obama e da AIEA“, explicou, em referência à Agência Internacional de Energia Atômica. “Se aquilo tivesse sido feito, com um acordo de swap, o Irã hoje não teria condições de estar produzindo urânio em 60%. Isso tudo teria parado antes. Eles poderiam continuar enriquecendo urânio, mas com inspeções.”

Amorim afirmou ainda que os iranianos demonstraram boa disposição para negociar. “Toda a discussão foi muito franca, muito sincera”, encerrou. “Eles aceitaram o plano da maneira que os americanos tinham proposto.”

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