Washington Reis e a arte de se manter no poder de uma “raposa política”

Foto: Reprodução

Com 58 anos de idade, é a segunda vez que Washington Reis fica sem mandato ou cargo público desde que entrou na política, há 32 anos. Nas duas, o governador Cláudio Castro esteve presente: nos 4 meses após renunciar à vaga de vice na chapa de Castro, no início de setembro de 2022; e agora, após o mesmo referendar sua exoneração feita pelo governador interino, deputado Rodrigo Bacellar, presidente da Alerj, a 1 ano e 3 meses da próxima eleição, em outubro de 2026.

Pela primeira vez na história política da família Reis, o clã fincado em Caxias, segundo maior reduto eleitoral do Estado, é oposição na Assembleia Legislativa, onde Rosenverg Reis, irmão do ex-secretário de Transportes, vive às turras com Bacellar.

Estrategista que é, e sempre ao lado do poder, Reis renunciou ao cargo de prefeito de Caxias em abril deste ano para, inicialmente, ser candidato a senador, mas, após costuras políticas, acabou como candidato a vice na chapa do governador Cláudio Castro. Com seu impedimento decretado pelo TRE/RJ, devido à condenação por crime ambiental em 2016, mesmo podendo recorrer, renunciou à candidatura, segundo ele, para não prejudicar a chapa, que acabou vencedora.

Como prêmio, ao tomar posse, quatro meses depois da sua desistência às duas candidaturas (Senado e Vice-Governadoria), Castro o nomeou para uma das principais pastas da administração estadual, a Secretaria de Transportes e Mobilidade Urbana, responsável pela coordenação e fiscalização do Metrô, Trens, Barcas e linhas de ônibus intermunicipais.

Atuou apenas 1,5 ano na pasta, prazo suficiente para viabilizar projetos de alto retorno eleitoral, como redução em 40%, aproximadamente, das tarifas de metrô e trem, além de novo sistema de bilhetagem nos ônibus intermunicipais, o que o fez sonhar com o cargo mais alto do Palácio Guanabara. Acordou, no último dia 10, atropelado pela manobra entre Castro e Bacellar, que o afastaram do cargo a 15 meses da eleição de 2026. O presidente da Alerj é o candidato a governador e Castro, a senador, e não querem concorrentes com musculatura eleitoral por perto.

Não é a primeira decepção de Reis com Cláudio Castro. Em junho de 2022, em pleno processo da formação da chapa ao governo estadual, o governador escolheu para membro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) o deputado Márcio Pacheco (PSC), em detrimento de seu irmão Rosenverg, também candidato ao cargo.

Carreira ininterrupta e aumento de poder com inserção da família na política

Há 32 anos e sem interrupções, Reis começou sua carreira política como vereador de Duque de Caxias pelo PSB (1993/1994). Depois, foi deputado estadual pelo PSC por três mandatos (1995/2004). Ocupou a cadeira de prefeito de Duque de Caxias por 2,5 mandatos. A primeira vez foi de 2005 a 2008. Depois, se tornou subsecretário de Sérgio Cabral na pasta de Obras Metropolitanas entre 2009 e 2010. Foi para Brasília, onde exerceu o cargo de deputado federal pelo PMDB por um mandato e meio (2011 a 2016). Retornou à cadeira de prefeito de Caxias pelo PMDB entre 2017 e meados de 2022, ano em que renunciou ao cargo para se candidatar, inicialmente, ao Senado.

Desde que entrou na política, Reis amplia seu poder no Estado do Rio inserindo a família no meio onde atua. Seus três irmãos gostaram e repetiram a dose. Júnior Reis (60 anos) está em seu sétimo mandato como vereador de Caxias; Rosenverg Reis (47 anos), em seu terceiro mandato como deputado estadual; e Gutemberg Reis (45 anos), em seu segundo mandato como deputado federal.

Washington Reis, Claudio Castro e Netinho Reis

Raposa política que é, e seguindo o lema “antes de avançar sobre o rebanho dos outros, cuide do seu”, Washington Reis saiu de Caxias para voos mais altos, mas deixou um sucessor de confiança no seu principal reduto eleitoral: o sobrinho, Netinho Reis (MDB), atual prefeito do segundo maior colégio eleitoral do estado, com mais de 670 mil votos. Antes, o chefe da cadeira foi seu tio, Wilson Miguel.

Característica comum na família é o fato de serem líderes de votos em todos os pleitos que participam na região, o que dá cacife para Reis negociar acordos políticos nas três esferas de poder (municipal, estadual e federal) e ser um disputado cabo eleitoral. Não ficou ao relento nem uma semana: já foi amparado pela Família Bolsonaro.

Falsificação de certificados de vacinação para familiares e assessores de Bolsonaro

Washington Reis foi alvo da segunda fase da Operação Venire, da Polícia Federal, em 2024, para identificar novos beneficiários de falsificação de certificados de vacinação. A fraude teria beneficiado familiares e assessores do presidente Jair Bolsonaro e seu irmão, Rosenverg Reis, com inserção irregular de dados no ConecteSUS, base de registro das vacinas de combate à Covid-19.

Na busca na casa do então secretário estadual de Transportes, os policiais apreenderam R$ 200 mil em dinheiro. Washington Reis negou as acusações, mas não respondeu sobre o dinheiro apreendido na casa dele. A PF indiciou 16 pessoas, incluindo Bolsonaro e Rosenverg.

Amizades poderosas

Tornou-se amigo e membro do grupo de Sérgio Cabral no período em que foram deputados estaduais e quando o colega presidiu a Alerj, entre fevereiro de 1995 e fevereiro de 2003. Em 2009, aceitou o convite do agora governador Sérgio Cabral e assumiu o cargo de subsecretário estadual de Obras Metropolitanas do Rio de Janeiro. Deixou o cargo no ano seguinte para se candidatar a deputado federal, sendo eleito com mais de 130 mil votos, tornando-se um dos dez mais votados do estado do Rio de Janeiro.

Em 2014, repetiu a dose e foi reeleito para o seu segundo mandato como deputado, com mais de 103 mil votos, ficando entre os doze primeiros. Com o fim da Era Cabral (2007/2018), condenado a mais de 390 anos por casos de corrupção, embarcou no bonde dos novos donos do poder executivo estadual, Wilson Witzel, afastado em 2020 também por corrupção, e agora o governador Cláudio Castro.

O curto mandato de Witzel (2019/2020) não impediu a interação do então prefeito de Caxias com o Palácio Guanabara. Reis e seu irmão Rosenverg, líder do MDB na Alerj, foram incluídos na Operação Tris in Idem, uma das responsáveis pelo primeiro impeachment de um governador na história do Rio de Janeiro.

Em delação premiada, os irmãos foram acusados pelo ex-secretário de Saúde de Witzel, Edmar Santos, de fazerem acordo com o governador para o repasse direto de R$ 100 milhões por meio da sistemática de transferências fundo a fundo, ou seja, entre o fundo estadual e o fundo municipal de Saúde. Com isso, só em 2020, o fundo municipal recebeu mais de R$ 41 milhões do estado, relacionado a dívidas dos anos anteriores. Este valor é superior até mesmo ao da capital, com população dez vezes maior. Dos 70 deputados, 69 aprovaram o impeachment de Witzel. Rosenverg Reis foi o único que não compareceu.

Outro amigo, este do Congresso Nacional, é o ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, Eduardo Cunha, cassado por quebra de decoro parlamentar em 2016, quando era presidente da Casa. Ele ocultou, em depoimento à CPI da Petrobras em 2015, contas bancárias milionárias no exterior. Como membro do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, Reis votou por duas vezes favorável ao amigo: contra a admissibilidade do processo de cassação, em 2015, e contra a aprovação do mesmo, em 2016. Com a cassação consolidada, após longo período de manobras regimentais, Reis e mais 41 deputados não compareceram ao plenário da Câmara no dia da votação da punição. Cunha foi alijado do poder por 450 votos a 10, com nove abstenções.

Gestões conturbadas como prefeito e candidato

Washington e Netinho Reis

Ano passado, Reis e seu grupo político foram alvo de busca e apreensão por parte da Polícia Federal, por suspeita de movimentarem cifras milionárias de compra de votos e lavagem de dinheiro nas eleições em municípios da Baixada Fluminense. A ação dos policiais envolveu aliados e familiares de Reis, como o prefeito de São João de Meriti, João Ferreira Neto; a vereadora Fernanda da Costa, filha do traficante Fernandinho Beira-Mar; e o então prefeito de Caxias, Wilson Reis (tio), e o eleito, Netinho Reis (sobrinho), entre outros.

Suposto desvio de R$ 563,5 milhões

Em 2022, a Polícia Federal (PF) iniciou uma investigação sobre o desvio de dinheiro em contratos da Saúde na Prefeitura de Duque de Caxias, que teriam ocorrido durante o mandato de Washington Reis como prefeito. Ele foi apontado como responsável por garantir a atuação de uma organização criminosa que supostamente desviou R$ 563,5 milhões na cidade. Em 1º de setembro, uma operação de busca e apreensão da PF apreendeu R$ 700 mil em dinheiro vivo na casa do ex-secretário de Saúde de Duque de Caxias, José Carlos de Oliveira. Na casa do prefeito foi encontrado um fuzil, que Reis atribuiu a propriedade ao seu irmão deputado, Rosenverg.

Condenação por crime ambiental

No final de 2016, Reis foi condenado por unanimidade pelo STF a sete anos e dois meses de cadeia, em regime semiaberto, por crime ambiental, além de multa no valor de 67 salários mínimos (R$ 101.706,00), pela construção de um loteamento em Xerém, no entorno da Reserva do Tinguá. A obra, realizada em 2003, incluiu corte de vegetação em encostas e área de preservação permanente, e a terraplanagem em beira de rio. Segundo a decisão, o político ignorou autos de infração e embargos, demonstrando sentimento de impunidade e desrespeito às autoridades ambientais.

Obras de cemitério público suspensas

Como no seriado “O Bem-Amado”, da TV Globo, o então prefeito de Caxias também teve problemas com a inauguração do cemitério da cidade. Em 2017, a Justiça mandou suspender a construção e inauguração de um cemitério no município por suspeitas de irregularidades. Falta de licitação, crime ambiental e ocupação irregular foram algumas das falhas apontadas.

Em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro pediu o bloqueio de R$ 2 milhões, a quebra dos sigilos fiscal e bancário e a condenação de Washington Reis por improbidade administrativa, após o prefeito insistir na inauguração, proibida pela Justiça, do novo cemitério em plena pandemia da COVID-19.

Nascido em 1967, em Xerém, distrito de Caxias, aos pés da Serra de Petrópolis, antes de mergulhar na carreira política, Reis foi empresário e dirigente do ramo futebolístico. Foi diretor-executivo do Esporte Clube Tigres do Brasil e presidente de honra do Duque de Caxias Futebol Clube. É casado e pai de quatro filhos.

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