Douglas Ruas (PL) começou a campanha para o governo do estado do Rio com um problema básico: ninguém sabia quem era… Douglas Ruas. Quarenta e nove dias depois, chega às urnas, neste domingo (04), em outro patamar. O presidente da Assembleia Legislativa já pode ser considerado figurinha carimbada. Conseguiu crescer, encurtou (muito) a distância para o favorito Eduardo Paes (PSD) e, principalmente, avançou sobre um eleitorado essencial: o de Flávio Bolsonaro (PL).
Os números do Datafolha revelam essa escalada. Em agosto, Douglas tinha 19% das intenções de voto. Na pesquisa divulgada em 14 de setembro, chegou a 25%. No levantamento mais recente do instituto, publicado nesta quinta-feira (01), alcançou 31%. No mesmo período, Paes passou de 41% para 42%.
A distância entre os dois, portanto, caiu de 22 para 11 pontos.
Mais avassalador é o crescimento dentro do campo bolsonarista. Ainda segundo o Datafolha, Douglas chegou a 55% entre os que se definem como alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. E, entre os eleitores de Flávio, a ascensão foi ainda mais acentuada: a adesão a Douglas passou de 37% para 56% e chegou a 63% na reta final.
Ou seja: o candidato do PL finalmente começou a encontrar o eleitor do PL.
Bolsonaro como padrinho — e como atalho
Flávio Bolsonaro nunca foi um personagem lateral na candidatura de Douglas. Foi parte de sua razão de existir.
O deputado estadual de primeiro mandato foi escolhido para dar um palanque próprio no Rio ao candidato a presidente pelo PL e entrou na disputa com seu aval. Disse, em entrevistas, que gostaria de ter Flávio ao seu lado todos os dias — não chegou a tanto, mas pode desfilar com ele, só durante o período oficial da campanha, em pelo menos 12 eventos (fora os que estão programados para hoje, em Bangu e Campo Grande).
Já na abertura da disputa, na Praia de Copacabana, se apresentou ao eleitorado mais à direita, afirmando ter recebido do próprio Jair Bolsonaro a missão de disputar o governo do estado.
A família virou a estrela dos programas eleitorais. Flávio e Jair Bolsonaro apareceram na propaganda de Douglas desde a estreia. Na reta final, a campanha chegou a usar, sem autorização, a imagem de Vini Jr numa peça que fazia uma comparação entre casais só para chegar à mensagem que realmente interessava: de um lado, Lula e Paes; do outro, Bolsonaro e Douglas.
Pode ter sido uma peça discutível — sobretudo pelo uso não autorizado da imagem do jogador, que foi até proibido pela Justiça Eleitoral — mas deixava cristalina a estratégia.
Douglas precisava transformar o sobrenome Bolsonaro em fermento eleitoral.
O candidato novo e os velhos conhecidos
A campanha investiu numa comunicação leve, rápida, com linguagem voltada especialmente para os mais jovens e forte ênfase na ideia de renovação. Aos 37 anos e disputando pela primeira vez uma eleição majoritária, Douglas tem características (inclusive físicas) que ajudam a sustentar essa embalagem.

O problema é que sua biografia política é menos nova do que a propaganda sugere.
Douglas está em seu primeiro mandato na casa legislativa do Largo da Carioca, mas ocupa há anos cargos públicos e políticos. Além da Alerj, passou pela Prefeitura de São Gonçalo, pelo Inea e pelo primeiro escalão do governo estadual. Em 2023, Cláudio Castro o nomeou secretário estadual das Cidades, pasta que comandou até março deste ano. A própria biografia oficial da Alerj registra a passagem pelo governo Castro.
Sua trajetória também está ligada a dois personagens experientes do PL fluminense: o pai, Capitão Nelson, prefeito de São Gonçalo, e o deputado federal Altineu Côrtes, vice-presidente da Câmara Federal. Levantamento publicado pela “Folha de S.Paulo”, em março, mostrou que Douglas acumulava nove anos em cargos sob a influência política dos dois.
Trata-se de uma das contradições mais interessantes da campanha: a renovação é um dos principais produtos vendidos por um candidato formado dentro de estruturas políticas para lá de tradicionais.
Castro? Que Castro?
Se Flávio Bolsonaro foi trazido para o altar do projeto eleitoral do PL no Rio, Cláudio Castro foi relegado à sacristia. Douglas comandou durante cerca de dois anos uma das principais secretarias do governo Castro, a das Cidades, responsável por grandes investimentos em obras nos municípios.
O partido também esteve presente em outras pastas — e em muitos outros escalões.
Mas, durante a campanha, todo mundo procurou marcar distância do ex-governador.
Ao ser questionado, o candidato a governador recusou-se a dar uma nota à administração da qual participou, disse desaprovar a gestão e afirmou que Castro não subiria em seus palanques.
Em outro momento, classificou a relação entre os dois como apenas “política e institucional”.
Um colunista da “Folha” observou que a campanha praticamente retirou do currículo eleitoral de Douglas os dois anos à frente da Secretaria das Cidades.
Embora haja uma dificuldade óbvia nessa estratégia: foi justamente a passagem pela secretaria que ajudou o candidato do PL a ampliar sua presença fora de São Gonçalo. À frente da pasta, ele teve contato direto com prefeitos — para quem levou investimentos em pavimentação, drenagem, equipamentos públicos e mobilidade.
Ou seja, aquilo que a campanha prefere não associar a Castro foi também o que ajudou Douglas a construir seu nome na política do estado inteiro.
Bacellar também ficou fora da foto
Rodrigo Bacellar é outro personagem cuja proximidade se tornou inconveniente. Douglas e o ex-presidente da Alerj foram aliados na Assembleia — como, aliás, quase que a Assembleia inteira. Depois da prisão de Bacellar, praticamente todos procuraram afastar de si qualquer responsabilidade pelo antigo aliado.
Ao comentar sobre o ex-presidente da Alerj que hoje está no presídio de segurança máxima de Mossoró, no Rio Grande do Norte, afirmou só que qualquer pessoa envolvida com práticas criminosas deve ser punida.
Nos debates, os adversários exploraram a convivência entre os dois. Eduardo Paes (PSD), o maior oponente, principalmente. Mas William Siri (PSOL), por exemplo, chamou Douglas repetidamente de “pupilo” de Castro e Bacellar. Douglas respondeu com a frase que acabou funcionando quase como um resumo de sua estratégia de campanha: “Não sou candidato de ninguém. Eu tenho identidade própria.”
A força que vem de fora da capital
Se Paes montou uma operação para conquistar prefeitos, especialmente na Baixada Fluminense, Douglas nem precisou, porque contava com a capilaridade do PL e de suas próprias relações no interior. A passagem pela Secretaria das Cidades lhe deu contato com administrações municipais de diferentes regiões.
Antes disso, porém, havia a fortaleza familiar de São Gonçalo. Em 2022, Douglas foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio, com 175.977 votos — e 149.576 deles vieram apenas de São Gonçalo, onde obteve 33% dos votos válidos.
É quando entra a força do PL. O partido ofereceu uma estrutura capaz de transformar uma base municipal extraordinariamente concentrada numa candidatura estadual.
A alquimia do horário eleitoral
Douglas entrou no horário eleitoral com o segundo maior tempo de televisão entre os candidatos ao governo. Mas o tempo foi o de menos. A campanha elaborada pelo publicitário Paulo Vasconcelos apresentou um candidato jovem, policial civil concursado, pai de família, ligado a Bolsonaro e distante, na narrativa eleitoral, dos problemas recentes do governo estadual. Um golaço reconhecido até pelos adversários.

Segurança pública, o assunto do momento, até ocupou um espaço importante, mas a propaganda procurou evitar um Douglas excessivamente sisudo. A linguagem mais leve e as peças voltadas à juventude ajudaram a construir a imagem de alguém que estaria chegando para renovar a política fluminense.
Uma campanha que escolheu muito bem o que colocar em foco.
E, principalmente, o que deixar à margem dele.
A eleição que Douglas conseguiu mudar
O presidente da Assembleia Legislativa chega ao fim do primeiro turno olhando (muito) do alto a posição em que começou. Paes continua líder, mas o adversário encostou — e, independentemente do resultado final, já deixou sua marca na eleição.
Com uma história política que passa por Capitão Nelson, Altineu Côrtes, o governo Castro e a própria cúpula da Alerj, o Douglas que vai às urnas é uma mistura peculiar de novidade e continuidade: um rosto jovem, apresentado numa campanha arejada — que está conseguindo convencer o eleitor de que sua trajetória política começou bem mais recentemente do que a realidade pode provar.
