Neste 2026, estamos celebrando os 80 anos do poeta, cronista e compositor Aldir Blanc, e, como vem ocorrendo há quase duas décadas, uma multidão de parceiros, amigos, músicos e admiradores reuniu-se para cantar suas músicas e festejar sua obra. A festa na rua foi agora em outubro, no domingo (11/10), já que o mês do aniversário de Aldir foi o setembro mais chuvoso deste século no Rio de Janeiro – em mais uma “cortesia” da crise climática.
O atraso acabou fazendo a festa na rua coincidir com o lançamento, no Festival do Rio, de dois filmes também em homenagem ao bardo da Muda. O documentário ‘Aldir Blanc – Resposta ao Tempo’, de Marcus Fernando e Hugo Suckman mergulha no universo do poeta, suas inspirações e seu jeito único de contar histórias, através das letras de canções e crônicas. O outro longa – “Fui olhar você dormir”, dirigido por Ana Azevedo, com roteiro de Ana e Claudio Uchoa – tem como foco e fio condutor a relação íntima e pessoal de Aldir com a companheira de vida, Mari Lúcia de Sá Freire, com quem ele viveu por mais de 30 anos.
No domingo, com ruas da Muda da Tijuca tomadas, dezenas de músicos e cantores se revezaram numa roda de samba – que começou à tarde e terminou só à noite – com a meta explícita de interpretar 80 músicas de Aldir Blanc, parcerias com João Bosco, com Moacyr Luz, com Guinga, com Cristóvão Bastos, que dão um pouco da dimensão de seu legado. A tenda foi armada no agora Largo Aldir Blanc, com direito a busto do próprio feito pelo amigo , homenagens feitas após a morte do carioquíssimo artista, em maio de 2020, por consequências da covid-19.
É o jornalista Leonardo Lichote quem conta, em reportagem de 2021, na revista Piauí, que, em 31 de março de 2020 – data consagrada pela ditadura para o golpe militar de 1964 -, Aldir Blanc correu à janela de seu apartamento no Rio de Janeiro e soltou a voz: “Assassino! Assassino!”, durante um panelaço contra o presidente Jair Bolsonaro que, àquela altura, buscava minimizar a pandemia de covid-19, já responsável por milhares de mortes pelo mundo.
No Brasil, foram mais de 700 mil mortes. Jair foi o garoto-propaganda do vírus, o chefe de facção negacionista que chamou a doença de “gripezinha”, que estimulou as aglomerações públicas, que atacou o isolamento social, que debochou dos doentes com falta de ar, que incentivou o uso da inútil cloroquina, que desprezou a vacina e atrasou a compra daquelas que poderiam ter salvo milhares de brasileiros. Preso por tentativa de golpe de estado, Jair ainda não pagou por esses crimes contra a saúde pública.
Jair, ainda impune pelos crimes acima, também atacou as universidades, as instituições científicas, a educação pública e a cultura em geral. Em junho de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro vetou o projeto de lei para instituir a a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, aprovada meses antes pelo Legislativo para repasses anuais de R$ 3 bilhões da União a estados e municípios para ações no setor.
Em julho, o Congresso derrubou o veto – por unanimidade no Senado e com 414 deputados a favor e 34 bolsonaristas contra na Câmara – e a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura passou a valer para financiar 17 atividades e ações como exposições, festivais, festas populares, feiras e espetáculos, prêmios, cursos, concessão de bolsas de estudo e realização de intercâmbio cultural. Aliás, as razões para o veto eram as contas públicas, sempre ameaçadas pelas políticas em defesa dos mais pobres, da educação, da saúde, da cultura.
Jair detesta tudo isso – a nova política de incentivo cultural foi uma vitória póstuma e mais um legado de Aldir ao Brasil. Legado muito maior é sua coleção de obras-primas, canções gravadas por intérpretes gigantes da nossa música e textos impressos na história em jornais e livros. E, também depois da morte, “o ourives do palavreado” – como o definiu o grande Dorival Caymmi – seguiu incomodando essa gente careta e covarde.

Em 2021, foi lançado um disco póstumo com músicas inéditas de Aldir: canções prontas, que não haviam sido gravadas por uma razão ou outra, músicas inacabadas que foram concluídas por parceiros, e letras prontas do compositor, musicadas após sua morte. Entre elas, ‘Virulência’, com versos enviados por email por Aldir Blanc ao amigo Alexandre Nero, ator, cantor e compositor. É uma letra para não nos esquecermos de Jair e suas companhias, o vírus, a violência, a destruição da floresta: “Na falta de ar, um governo deserto”, diz a letra.
A ‘Virulência’ – de Blanc, Nero e Antonio Saraiva – começa com “Um vírus nos virou do avesso / Nos arremessou pra dentro / Um tiro nos atirou por entre a Maré / É preciso inventar um lado de fora / É preciso ventar”. Segue com “Madrugada / Ouço o choro de crianças baleadas / Que brincando tombam na sala / Quilombolas, guajajaras machucadas / Nas florestas e favelas / Por um fio, equilibristas no nada”. E conclui, numa reflexão sobre Brasil à mercê de Jair: “Que falta me faz meus pais / Que falta nos faz a paz / Que falta nos faz um país”.
Em torno do busto de Aldir, celebrando seus 80 anos, centenas de cariocas como ele (nascido no Estácio, criado em Vila Isabel, por mais de 30 anos morador da Muda) lembram da falta que fez um país nos anos tenebrosos de Jair e sonham com um Brasil sem bolsonaros.
